«Parker» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O veterano realizador Taylor Hackford é daqueles burocratas de plantão que, quando tem sorte com o material, até pode fazer qualquer coisa de jeito (“O Advogado do Diabo”, “Ray”) mas, caso contrário, não tem grande imaginação para mudar o curso dos acontecimentos. 

“Parker” pertence a essa segunda categoria, mas não é assim desde o início. Embora as suas cenas de assalto, com ladrões disfarçados e a trajetória de um criminoso (a personagem-título, vivida por Jason Statham) traído num golpe que parte em busca de vingança, já tenham sido vistas em milhares de filmes, Hackford consegue estabelecer com a sua narrativa protocolar um filme tenso durante o primeiro terço. Este vai ter o seu interesse acrescido quando entra em cena a agente imobiliária Leslie (Jennifer Lopez), mas não se sabe como se cruzarão as trajetórias, nem como se vai operar a vingança.

Mas é pouco depois que o argumento de John McLaughlin (co-argumentista de “Cisne Negro”!) vai começar a revelar um sem número de fragilidades. Num primeiro momento, trata-se apenas de um irritante descuido com uma série de pormenores; mas depois de uma certa altura começam a aparecer cenas sem qualquer sentido. E estas incluem o “striptease” que Leslie é obrigada a fazer (ou não fossem os produtores esquecer de “elevar” o nível de atenção do espectador despindo Jennifer Lopez), ficando de roupa interior sob o olhar impassível do “homem de princípios” Parker. 

E é destes tais “princípios” que vêm as piores incongruências deste filme. Parker (a personagem) abre mão da hipótese de deixar os traidores fugirem,  recuperar mesmo assim o seu dinheiro e viver em paz com a namorada por uma “questão de princípios”. Por outras palavras, ele foi roubado pelos seus comparsas e o mundo civilizado, como diz, precisa de regras. Seria tudo muito lindo se tal sentido de integridade não viesse… de um criminoso! Ou será que ele não conhece o ditado que diz que “ladrão que rouba ladrão tem mil anos de perdão”? 

No mais essa pretensa amoralidade não consegue competir sequer com um filme dos anos 60, o clássico “À Queima-Roupa”, também baseado numa obra de Donald Westlake, mas muito mais fiel ao espírito de genuíno do desencanto moral do cinema noir (coisa que este nem chega a ser).

Por fim, Lopez, quem diria, termina por ser o maior desperdício dramático de um filme onde ela até compõe com certo empenho a sua personagem de mulher falhada e de baixa auto-estima. O problema é que esta é quase sempre posta em situações e diálogos absurdos e nem se pode culpá-la por não conseguir criar química com o cepo que é Jason Statham. Vem desta “interação” a cena mais ridícula do filme – quando ela diz, entre lágrimas, “nunca tive hipótese, pois não?”. Ela chora, mas o espectador ri.

O Melhor: O primeiro terço do filme
O Pior: o argumento cheio de falhas
 
 
 Roni Nunes
 

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