Personagens paralisadas podem render filmes marcantes, como “O Escafandro e a Borboleta” (Julian Schnabel) e “Mar Adentro” (Alejandro Amenábar) mas, diferente destes dois, “Seis Sessões” é bastante mais ensolarado. Ao mesmo tempo, tem um alcance bastante superior a outra abordagem mais leve do assunto, o divertido “Amigos Improváveis”.
Aqui Mark O. Brien (John Hawkes) já aprendeu a lidar com as suas limitações (o centro do filme com Matthieu Amalric), que no mais o acompanharam desde a contração de poliomielite aos seis anos. Ele é jornalista, escreve poesia e o filme começa justamente no ponto em que ele conclui seu curso de graduação na universidade. Tão pouco ele desenvolve um senso mórbido de vontade de morrer, como a personagem de Javier Bardem na obra espanhola, embora não estejam ausentes piadas sarcásticas sobre a sua condição. Numa delas, aliás, diz que obviamente acredita em Deus, pois do contrário não teria alguém para culpar pela sua condição…
A graça deste filme está em enveredar por um caminho totalmente insuspeito: pôr a sua personagem principal não só a aceitar os seus limites, como ainda a tentar superá-los justamente no ponto onde reside a sua maior fragilidade, o próprio corpo. Se seria impossível fazer de um tetraplégico um atleta paraolímpico e transformar a sua história num daqueles “exemplos de vida”, a aventura de O’Brien é tão grandiosa quanto prosaica: perder a virgindade aos 37 anos! Para ajudá-lo nesta inglória tarefa, entra em cena a terapeuta Cheryl (Helen Hunt).
Este foco atira o filme para o limite perigoso de torna-lo completamente ridículo. Uma realização perfeita de Ben Lewin, com um elenco afinado, não só evita o desastre como resulta num filme tão corajoso quanto o trabalho de Helen Hunt, cuja nudez em vários momentos serve para demonstrar o que é, no fundo, o grande tema do filme: a dualidade corpo/espírito (de notar a cena da conversão ao judaísmo).
A abordagem desta relação, embora não escape a um maniqueísmo quase inevitável (ainda que a furiosa e incómoda obra-prima de Jacques Audiard, “Rust’n’Bone”, que trabalha um assunto semelhante, diga o contrário), avança sem pieguices para um tema de grande atualidade. Em tempos de banalização total e excessiva do corpo e da sexualidade (“o sexo é sobrevalorizado, mas necessário”, diz uma personagem a certa altura), “Seis Sessões” acaba por propor um reiniciar, um novo começo nas relações de desejo e fruição do mesmo, ao mesmo tempo que o coloca como ponte necessária para algo mais.
Lewin força um pouco as coisas no final, mas isso não compromete a qualidade geral desta pequena pérola.
O Melhor: a grande qualidade na abordagem de um tema difícil e ainda insuficientemente explorado
O Pior: os floreios sentimentais do final; John Hawkes ter ficado de fora das nomeações ao Oscar
| Roni Nunes |

