«Flight» (Decisão de Risco) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Alguns produtores de Hollywood de vez em quando devem sentir-se nostálgicos dos tempos do Código Hayes e tentam desencantar do túmulo a sua missão evangelizadora. O estabelecimento do arquétipo do padrão moral é o que fica deste fait divers liderado por um dos seus mais reconhecidos (e conservadores) prestadores de serviço, Robert Zemeckis, e um dos seus peões favoritos (e do público) Denzel Washington. 

Para a sorte de toda a gente, Zemeckis anda aí há muito tempo e sabe filmar. A primeira parte deste “voo” é em primeira classe, com uma abertura a matar e uma das melhores sequências de acidentes aéreos que se tem notícia na história do “cinema-catástrofe”. Para aditivar a alta cilindrada, nudez, álcool e cocaína completam a farra, baralhando as contas da imagem de Washington e permitindo-lhe mostrar que, quando sai do lugar-comum (o que muito raramente acontece), tem dotes de ator a sério.

Ele é Whip Whitaker, um piloto com um comportamento “festivo” que, após um voo problemático torna-se um herói nacional com uma performance extremamente ousada que evita a morte da maior parte dos seus passageiros. Ocorre que ele não estava propriamente “são” quando fez as manobras e no restante do filme o seu “background” de herói nacional será corroído, primeiro pela suspeita, depois pela culpa. As cenas a envolver o piloto são intercaladas com os maus momentos pelos quais passa Nicole (Kelly Reilly), às voltas com a sua adição à heroína e cujo destino se cruzará com o do piloto. 

A estas alturas as expetativas ainda estão altas. Os personagens, particularmente Whip, circulam numa penumbra onde não se sabe quem realmente são, guardando ambiguidades suficientes para levar adiante um filme sombrio e intenso. O problema é quando os fantasmas saem da sombra e começam a ganhar formas conhecidas, fixando-se no preto-e-branco do julgamento fácil e transformando um filme até aqui a lento, mas ainda assim estimulante, num arrastado deambular por decadência e autorrecriminação. 

A “perda de altitude” é inevitável, sem que apareça alguém para virar a trajetória ao contrário e salvar o espectador. Dava para desconfiar: com Zemeckis e Washington no comando, era só uma questão de apertar os cintos e esperar pela redenção moralista e sentimental que devolve a todos o seu herói e modelo para os seus filhos. É pena, porque com outros interesses e ambições teria-se evitado que o voo deste filme começasse a cinco mil pés e terminasse com uma aterragem forçada num pântano, onde acaba por afundar.

O Melhor: a primeira parte em geral, as sequências do acidente em particular
O Pior: a segunda parte sem ritmo e o final moralista e sentimental
 
 
 Roni Nunes
 

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