«Reality» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Entre uma panorâmica aérea que vai buscar na vastidão da grande cidade o quinhão de fantasia ocasional com que cada um abandona o seu quotidiano, ao travelling invertido que abandona o cenário da concretização de um desejo (e não se está a revelar nada!) para devolvê-lo à mundanidade, Matteo Garrone (“Gomorra”) faz aqui mais um filme sobre mentiras. 

Mais subtis do que as do grande mundo do crime organizado da obra que o consagrou, estas impregnam o mundo da televisão, dos media e, mais especificamente, dos reality shows. Luciano (Aniello Arena), um dedicado pai de família e esforçado homem de pequenos negócios, faz uma despretensiosa audição para o Big Brother para agradar a filha, mas a hipótese de se tornar rico e famoso acaba por absorve-lo. É quando um invisível “grande fratello” passa a espreita-lo por todo o lado…

A inventividade do argumento vai-se revelando nos pequenos ícones de fantasias que vai espalhando aqui e ali (a carruagem no início, as máscaras da festa hype na discoteca), com destaque para uma deliciosa referência à fábrica de sonhos da Cinecittá, cujos estúdios já albergaram Fellini e Visconti e agora servem de audições para o Big Brother. Outra associação é com a religião, esta feita através do subordinado de Luciano, Michelle (Nando Paone), um católico devoto que num momento diz que “…estamos todos a ser observados o tempo todo. Deus vê tudo”. E não è à toa que as sequências de resolução da história começam num grande evento (de delírio coletivo…) cristão.

“Reality” não chega a tocar diretamente na perversidade dos reality shows e do mundo dos media, embora seja perfeita a caracterização de um ex-vencedor do concurso Enzo (Raffaele Ferrante) como símbolo deste universo. O foco é o efeito que este provoca sobre o homem comum que resolva acreditar neles, ao mesmo tempo que tornam-se completamente obtusos os limites entre acreditar e delirar e onde a imaginação começa a dominar a percepção do mundo “real”.

O estilo de câmara sempre em movimento, planos fechados e fundo desfocado presta-se melhor aqui para criar o permanente estado febril e à beira do delírio de Luciano do que em “Gomorra”, cuja força do livro de Roberto Saviano merecia um tratamento mais sóbrio. A obra envereda por um assunto já muito percorrido (o do efeito dos media sobre as pessoas “comuns”) e por um tema específico (o dos reality shows), cujo testemunho definitivo foi dado pelo fabuloso “A Vida em Directo” (Truman Show), de Peter Weir. No todo, se Garrone é um cineasta um tanto sobrevalorizado, o filme cumpre o esperado.

O Melhor: os signos nem sempre óbvios para representar o mundo da fantasia
O Pior: tema muito abordado, sem um rasgo de originalidade por aí além
 
 
 Roni Nunes
 

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