Numa era onde a grandiosidade no cinema confunde-se com espetacularização tecnológica e violência estilizada e sem finalidade (depois não admira que pirralhos psicóticos invadam cinemas aos tiros), Tom Hooper vai repescar no diletante mundo dos musicais cinematográficos uma outra forma de ser sumptuoso. O filme adapta o espetáculo concebido em França em 1980 e posteriormente recriado numa versão inglesa de 1985 – o qual tornou-se num enorme sucesso em vários países. Na origem de tudo, a obra monumental de Victor Hugo.
Em primeiro lugar, cabe ao espectador atual, muito pouco habituado a esse género que já foi soberano na Hollywood clássica, abandonar a ideia de que vai apreciar uma narrativa linear. Não é que ela não exista, mas o que ocorre é que se está num meio onde o artifício tem tanta preponderância quanto aquilo que se esta a contar. Esse sentido de irrealidade transporta quem assiste para um mundo onde é tão importante ouvir quanto ver. O objetivo não é a clareza sintática do contador de histórias, mas a deliciosa construção de um jogo com outras regras.
No caso de “Os Miseráveis”, a opção de Hooper, ao contrário de obras que mesclam as conversas entre as personagens com números de música, é pela fidelidade total ao género – ou seja, todos os diálogos são cantados. Se as músicas, com exceção de uma, inédita, vêm mais do que atestadas e aprovadas do palco, as performances (novamente com uma exceção, a da atriz Samantha Barks, que vem do musical original) são novíssimas – e fornecem a oportunidade para um elenco alto nível, liderado por Hugh Jackman, trazer momentos de grande intensidade. A fotografia e a direção de arte completam uma obra onde a estranheza inicial vai cedendo lugar ao arrebatamento.
Apesar da importância do artifício, de forma alguma a denúncia da dura vida pós-revolucionária na França do século XIX se perde na orquestra das formas. Estão lá o enredo emocionante e cheio de reviravoltas de Victor Hugo, as personagens magníficas e trágicas e, sobretudo, a crítica social, o fundo histórico e as bandeiras tremulantes dos revolucionários desgraçados que sonham com um mundo melhor numa França onde as esperanças da Revolução Francesa tinham sido esmagadas pela Restauração monárquica pós-napoleónica.
Estranha epopeia de arrojo e paixão vinda do cineasta de um dos filmes mais sobrestimados da história: “O Discurso do Rei”. Abrindo com uma sequência poderosíssima (ao som de “Look Down”), Hooper encerra a sua obra com uma cena arrepiante e inesquecível, desde já inscrita como um dos grandes momentos para a antologia do cinema do ano que está a começar…
O Melhor: a grandiosidade do espetáculo artístico
O Pior: nada
| Roni Nunes |

