«También la lluvia» (Também a Chuva) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

“A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. O famoso aforismo de Karl Marx ilustra sobremaneira a conexão inteligente entre formas de opressão ancestrais e modernas aqui exibidas neste “Também A Chuva”.

Luís Tosar e Gael García Bernal são, respetivamente, produtor de cinema e realizador de uma obra histórica sobre a chegada de Cristóvão Colombo na América. Para diminuir os custos, o produtor decide situar as filmagens na Bolívia, mais precisamente em Cochabamba, onde, segundo as suas palavras, “índios famintos forneceriam extras em fartura”. Ocorre que fora das filmagens a situação do mundo real deteriora-se rapidamente quando os “extras” envolvem-se em tumultos de protesto contra a privatização da água.

A personagem de Bernal, como todo o realizador (ou os bons, pelo menos), tem algo de sonhador e idealista e traz para o seu filme a história dos primeiros missionários a rebelarem-se contra os maus tratos aos índios durante o início da colonização (representado por um retrato nada lisonjeiro de Cristóvão Colombo). Ele também personifica a chama da criação artística, a tensão criativa, que num determinado momento diz: “O filme vem em primeiro lugar. Sempre”. 

Mas a evolução dos acontecimentos parecem dizer a ele que de “boas intenções o inferno está lotado”. É o que entrecruzamento do seu grandioso projeto com uma realidade muito mais intensa e atroz se dará de uma forma que deixará pouco para ele abordar na arte. É que, politicamente, 500 anos de opressão apenas tomaram novas formas e agora soldados fortemente armados invadem as terras dos indígenas para lhes encerrar os canais de escoamento de água para as suas famílias – a fim de obriga-las a comprá-la de uma companhia norte-americana. Numa cena crucial, os seus figurantes terminam a filmagem das execuções promovidas pelos soldados de Colombo para depois atacar as forças bem reais da polícia atual. “É um sonho, isso não é real”, diz o cineasta. 

Esse poderoso entrelaçamento entre arte e realidade será ainda mais intensamente sentido, curiosamente, pelo capitalista e materialista produtor. Ele será o mais modificado pelo rumo incontrolável que tudo começa tomar à sua volta – seja nas filmagens seja nas ruas da cidade boliviana. E caberá a ele enfrentar o maior dilema do filme…

Com um argumento fabuloso, “Também A Chuva” fala sobre história, política e cinema, conseguindo intercalar tudo de maneira límpida e produzir um filme cheio de emoção, inteligência e conteúdo.


O Melhor: o argumento, que reúne um enorme leque de temas com clareza e profundidade
O Pior: a estreia tardia em Portugal
 
 
 Roni Nunes
 

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