«The Paperboy» (Um Rapaz do Sul) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

A passagem para a idade adulta ganhou um tratamento singular neste filme de Lee Daniels. Além de lidar com os percalços normais do processo, entre os quais a descoberta de uma paixão avassaladora por uma pitoresca ninfomaníaca (Charlote Bless, vivida por uma irreconhecível Nicole Kidman), Jack Jansen (Zac Effron) vai sendo atirado num rol de acontecimentos que fogem-lhe completamente ao controlo – onde não faltam homicídios, sodomia e espancamentos.

Daniels aproveita uma boa história de origem literária e os cenários peculiares do sul da Flórida para construir um filme que aos poucos vai saindo da sua pachorrenta vida de aldeia, onde vive Jack, com passagens pela praia com o objeto do seu desejo ardente, para lentamente embrenhar pântano adentro as suas personagens, onde crocodilos iluminados à noite navegam placidamente pelo rio lamacento. 

Da calmaria à tempestade, uma complexa teia de eventos vai lhe permitindo passar (sem grande profundidade, é verdade) por uma panóplia de questões, como a pena de morte, o racismo endémico do sul dos Estados Unidos e as mais diversas expressões da sexualidade. 

Tal como no magnífico “Shadowboxer”, seu filme de estreia, quanto em “Precious”, obra que o consagrou, um dos temas centrais é a sexualidade violenta ou vivenciada de forma febril. Ela está aqui presente no vigor adolescente de Jansen, na descompensada Charlotte Bless, no odioso presidiário por quem se apaixona por correspondência (John Cusack) ou na personagem de Matthew McConaguhey, irmão de Jack Jansen e marcado pela culpa.

Se Daniels permite ao seu filme (e ao espectador) respirar enquanto vai lentamente apresentando as personagens, numa primeira metade que parece marcada pela lassidão da voz da mãe substituta de Jack, Anita (Macy Gray), a sua câmara na mão e a fotografia granulada e desfocada vão se encaminhando para uma aceleração contínua, alcançando até ao final momentos de grande tensão.

A história não chega a ser de todo bem contada e algumas situações são mal exploradas – principalmente no que se refere à investigação levada a cabo por Ward. Da mesma forma, o próprio panorama do sul dos Estados Unidos, com seus paradoxos e paixões prestes a explodir, aparece por vezes tão desfocado quanto às lentes de Daniels. No todo, falta qualquer coisa para que seja um grande filme, mas anda lá perto – ainda mais por contar com um cast magnífico e em plena forma.

O Melhor: a forma singular de abordar uma história do sul dos Estados Unidos; o elenco
O Pior: algumas fragilidades na história
 
 
 Roni Nunes
 

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