«Life of Pi» (A Vida de Pi) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Parece que afinal o CGI e o 3D podem ter mais utilidades para além da espetacularidade visual dos filmes. Sob um pressuposto de fundo artístico, Ang Lee criou um filme de grande elegância e beleza visual – ainda que não escape de excessos que o tornam, por vezes, excessivamente plástico. 

“A Vida de Pi”, baseado no best-seller de Yann Martel, conta uma história com algumas semelhanças com a de Robinson Crusoé: depois de um naufrágio, um jovem sobrevive sem ver um único ser humano durante 227 dias. Só que isto não ocorreu numa ilha, mas numa embarcação no meio do Pacífico e com a nada agradável companhia… de um tigre. 

Este facilita a tarefa do argumentista David Magee no sentido de manter o interesse centrado numa odisseia de uma única personagem. Ao mesmo tempo, a história serve para Ang Lee recuperar o caráter natural/animal do ser humano escondido sob o verniz da civilização. Mais do que construir uma comunhão entre rapaz e animal, que ficaria bem num filme sentimental da Disney, a obra do cineasta chinês nunca retira ao tigre a essência daquilo que ele é: um predador feroz e insensível, representado como uma espantosa máquina de sobrevivência.

Mas se ele não deixa de ser um animal selvagem, também faz para de um todo natural – e aí a forma e conteúdo unem-se para dar à obra a sua beleza particular: usando tecnologia topo de gama e cenas de grande impacte visual, Lee aproxima homem e natureza, desde a submissão do primeiro à fúria das intempéries e a uma ilha devoradora, até uma diversidade de cenas com animais que ilustram esse desejo ao mesmo tempo que tornam o filme visualmente irresistível.

Por fim, é ainda destacado que uma das capacidades do ser humano é sublimar a selvageria e a tragédia através da fantasia – como se fica demonstrado no final, especialmente no “episódio” da livre escolha das histórias. 

Ao mesmo tempo, sabendo-se dos efeitos usados para produzir tudo isso (CGI, principalmente), “A Vida de Pi” não deixa de ter um certo sabor a “plástico” e de causar algum temor pelo futuro do cinema – quando tudo (ou quase) poderá ser produzido com alguns “clicks”. Acaba por ser quase paradoxal que esta comunhão cósmica entre homem e natureza se dê através de um computador… 

O Melhor: o simbolismo da relação entre Pi e Richard Parker; 
O Pior: por vezes excessivamente “plástico”
 
 
 Roni Nunes
 

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