Ainda foi possível, com uma engenhosidade aceitável, apresentar mais uma nova jornada heróica adaptada da obra de J.R.R. Tolkien, na base de um dos mais emblemáticos (e lucrativos) franchises do século XXI, “O Senhor dos Anéis”. Não se sabe se o mesmo acontecerá nos filmes a seguir pois, diferente da primeira trilogia, baseada em três livros, esta terá de extrair leite de pedra de apenas um. E alguém poderia avisar Peter Jackson que sim, é possível fazer um épico com menos de três horas.
Para já, não houve grandes dificuldades em manter a estrutura da trilogia anterior, intercalando calmarias idílicas com espectaculares cenas de ação – e mantendo o caráter lúdico próprio dos contadores de histórias, com os seus reinos estranhos, mapas bizarros, misturas de povos idiossincráticos e vilões pitorescos.
O filme segue “uma aventura inesperada” do velho Bilbo Baggins (Martin Freeman), ocorrida 60 anos antes das peripécias envolvendo o famoso anel. Na verdade, “Hobbit” mistura numa única jornada duas trajetórias. Uma é a do típico (e algo insípido) guerreiro protagonista de aventuras, o rei Thorin (Richard Armitrage), cuja motivação é a vingança e a busca do lar perdido e que, previsivelmente, resolve tudo na base da espada.
Para a sua empreitada é arrastado pelo mago Gandalf (Ian McKellen) o Hobbit – que vivia muito sossegado no seu idílio e sem qualquer interesse por aventuras, pois, como diz, “atrasam a hora do jantar”. Baggins acrescenta à história um charme particular: é medroso, acomodado, pacífico – e não tem nenhuma (exceto, eventualmente, a velocidade) qualidade que lhe seja distintiva. As soluções que encontra para os problemas são sempre atabalhoadas. Embora longe de ser atípico no género, não deixa de ser mais imprevisível.
Coisa que, de resto, não é o filme, que segue rigorosamente os passos do “Senhor dos Anéis” e de muitas histórias de fantasia: os heróis são colocados perante um dilema, precisam de agir e para isso põe-se na estrada. Lá vão se deparar com inúmeros perigos, que servem para lhes resgatar ou fazer descobrir qualidades interiores latentes e que lhes restitua um tipo especial de dignidade.
No empreendimento intercalam-se momentos de humor e calmaria com os ataques de uma vasta panóplia de figuras malignas – muito mais interessantes que os anões bonzinhos, diga-se de passagem: dragões, Orcs (e seus Wargs), Trolls, o necromante, gigantes de pedra, Goblins e o inesquecível Gollum, que faz por aqui uma sombria (e longa) aparição naquela que será, eventualmente, a melhor sequência do filme.
A história é contada com um timing perfeito, sem máculas, com suficiente clareza de exposição que permite que até meio do filme ainda sejam apresentados novas personagens (o mago “castanho”, por exemplo). Em especial para os apreciadores de efeitos e tecnologia, é particularmente eficiente. Para os não tão entusiastas, as violentas panorâmicas e travellings alucinados lembram um quimérico passeio de montanha russa.
O simbolismo visual é simples: as lutas nas entranhas da terra, nas montanhas escuras, sob intempéries diversas contrapõem-se aos vales iluminados dos reinos pacíficos e dos momentos de sossego. A enquadrar tudo, uma mensagem banal, que diz apenas que se queremos ter o nosso idílio e a nossa “casa”, temos que lutar em nome da honra e com coragem para obtê-lo.
No todo é eficiente, divertido e ainda evita as lamechices intermináveis com que Peter Jackson encerrava os filmes da sua famosa trilogia.
O Melhor: é uma história muito bem contada. E a volta do “my precious” Gollum…
O Pior: não traz grandes surpresas
| Roni Nunes |

