O mais interessante a propósito deste “Amanhecer Violento” não é o que se passa no grande ecrã, mas sim os importantes acontecimentos que envolveram a sua produção. Ao que parece, depois de já filmada esta fantasia em que os chineses invadiam o território norte-americano, alguém subitamente lembrou-se do enorme mercado dos asiáticos. O resultado foi uma operação sem precedentes: com alterações no argumento e uso do CGI para trocar bandeiras chinesas por norte-coreanas, os produtores mudaram os vilões do filme.
Esse facto indica pressupostos de enorme importância. Primeiro, desmonta o mecanismo que o cinema de Hollywood utiliza para vender mitos, inserindo ideias nada inocentes na mais banal aventura de entretenimento. Segundo, e ainda mais relevante, é ficar demonstrado que o que os yankees têm realmente motivos para recear os asiáticos, mas não é por uma implausível e desnecessária invasão dos seu território. Por outras palavras, o facto da poderosa indústria cultural dos Estados Unidos se sentir constrangida na hora de impor seus mitos, é demonstrativo da impressionante inversão da correlação de forças no cenário político internacional.
Já o que se passa dentro do ecrã não tem grande interesse. A substituição como povo invasor da China pela Coreia do Norte, país que tem menos população que Los Angeles, atira imediatamente o filme para um cenário descontextualizado e absurdo do qual nunca se consegue livrar. A verdade é que o plot do filme original de John Milius (de 1984) aqui retomado, que pelo menos tinha o sentido lógico de ter sido produzido no contexto da Guerra Fria, também não ajuda em nada. Sob a invasão de um exército inimigo, um grupo de pirralhos cheios de borbulhas aprende umas técnicas com um marine de licença (no original era o líder da equipa de basebol!), arranja armas pesadas e dedica-se a uma guerra de guerrilha para sabotar a ocupação.
E se esse cenário nunca consegue servir como enquadramento verosímil para a ação pura e dura, a coisa também não melhora com as personagens sem interesse e o adicional drama familiar requentado que só serve para transformar Chris Hemsworth num marine chorão. Com o objetivo de inserir propaganda numa peça de entretenimento tão má, é caso para dizer que “nem para eles eles são bons”.
O Melhor: uma pequena surpresa antes do festim bélico final
O Pior: nunca sai das fronteiras do absurdo
| Roni Nunes |

