Filme todo passado no submundo, que retrata criminosos a roubarem-se e a matarem-se uns aos outros. A utilizar fotografia cinzenta e chuva intermitente, o realizador Andrew Dominik pretendeu fazer o retrato de uma América subterrânea que funciona como representação da sua sociedade como um todo.
Uma pretensão louvável, mas que em termos estéticos dificilmente escapa a uma pálida tentativa de imitar Quentin Tarantino (mais que uma mão na calçada da fama, ele já começa a merecer uma estátua dada a quantidade de imitações): os diálogos pretensamente “espertos”, a amoralidade no tratamento dos criminosos, os gangsters com carácter pitoresco. Nem falta o uso de rock’n’roll dos anos 60. Até a cena de John Travolta a injetar heroína e com efeitos em slow motion, de “Pulp Fiction”, vem aterrar por aqui (os acordes do Velvet Underground já não, aí o realizador foi buscar ao “Trainspotting”, outro emblema dos 90s).
Essa fantasmagoria autoral nem sequer rende um filme particularmente divertido: para um filme de gangsters, não tem uma grande história e nem é propriamente feliz a desenvolvê-la. Ou seja, para quem procurar apenas entretenimento dá, no máximo, para passar o tempo.
O caso mais notório desta pretensão vazia e falhada é a personagem vivida por James Gandolfini, um assassino em crise existencial contratado para um homicídio que não comete – passando os dias trancados no hotel a embebedar-se e a receber prostitutas. Na verdade, a sua crise nunca consegue fazê-lo ser mais do que uma personagem sem sentido, que desaparece da história e nem se dá pela falta – culpa dos diálogos paupérrimos do argumento.
No mais, é uma tentativa global de se fazer cinema “esperto”: convenceu muita gente, inclusive o Festival de Cannes – contando que não o tenham feito para ter Brad Pitt na passadeira vermelha.
E há a parte política. Para o também argumentista Andrew Dominik fazer um comentário político num filme é reproduzir vezes sem conta (à beira do irritante) os discursos do por si já desagradável George Bush nos telejornais enquanto a ação decorre. Depois muda para os discursos de Barack Obama, não se vá pensar que o filme está a tomar partido.
Mas a sua tentativa de unir submundo e política não é totalmente perdida. O filme vai tendo os seus achados e pelo menos um momento magistral: o violento comentário o assassino Jackie Logan (Brad Pitt) faz sobre o seu país . De um sarcasmo niilista poucas vezes visto na sacrossanta abordagem da história americana no cinema do seu país, dispara ele: “Todos um só? Isto foi um mito criado por Thomas Jefferson. Ele é um santo americano porque escreveu que todos os homens foram criados iguais. Algo em que realmente acreditava enquanto muitos nos seus domínios continuavam a viver na escravatura. Ele revoltou-se porque estava farto de pagar impostos aos britânicos. Mas ele disse aquelas palavras e muitas pessoas morreram por elas, enquanto ficava lá atrás, a beber vinho e a fazer sexo com a sua escrava. Este tipo (Barack Obama) está a dizer que vivemos numa comunidade. Não me faça rir. Na América, estamos todos por nossa conta. A América não é um país; é um negócio”. K.O.!
O Melhor: a pretensão de reunir política e submundo; o diálogo entre Logan (Pitt) e um criminoso (Richard Jenkins)
O Pior: o descompasso entre a tentativa de fazer cinema “esperto” e o resultado
| Roni Nunes |

