No seu terceiro filme, o realizador escocês Peter Mullan retoma a sua infância para tratar de uma geração condenada pela desagregação social e por um sistema institucional altamente opressor (com a escola à cabeça, mas que inclui também a polícia).
John McGill (Connor McCarron) é um excelente aluno assediado por um meio que nada o favorece: colegas agressivos (NED é uma abreviação para Delinquentes Não Educados), professores embrutecidos por uma autoridade desmedida e uma família traumatizada por um irmão mais velho já no caminho da delinquência, e um pai alcoólico.
Das opressões a que é submetido o pequeno John ao raivoso adolescente já capaz de se defender e praticar atos de vilania, vai sendo mostrado um retrato pouco lisonjeiro da sociedade escocesa dos anos 70/80, incapaz de proteger as suas melhores figuras e amordaçada pelo peso da autoridade ou resumida a insignificância. Numa cena emblemática, a estátua da liberdade da terra para onde imigrou a tia de John transforma-se numa cruz, símbolo ela própria de outro tipo de opressão.
Numa das cenas de “Neds”, é a própria figura “divina” que John vai desafiar para uma luta corpo-a-corpo. Esta relação entre um processo individual pouco venturoso com um sistema deveras insatisfatório resulta num filme sempre envolvente e com vários pontos de interesse e emoção. Com tantas possibilidades abertas, a obra peca pela sua resolução, onde o excesso de “loucura” torna o retrato um tanto irrealista – para além de não trabalhar bem todas as possibilidades que abre. Vencedor do prémio máximo em San Sebastián, em 2010.
O Melhor: sólida ligação entre trajetória individual e retrato social
O Pior: a resolução da história
| Roni Nunes |

