Já dizia o grande mestre da historiografia portuguesa, José Mattoso, que aquilo que se deve estudar na sua disciplina é a história “viva”, aquilo que continua, os acontecimentos cujos paradigmas chegam de alguma forma até aos nossos dias.
Tivesse tal ideia em mente e o realizador Joaquim Sapinho teria poupado à sua personagem (e ao espetador) essas arcaicas sessões de penitência recheada da moribunda iconografia cristã para sustentar esse seu drama sobra a solidão e a incomunicabilidade. Não fosse a utilização de um meio surgido no contexto da 2ª Revolução Industrial para compor a obra, e este OVNI até podia ter sido disparado diretamente da Idade Média para a moderna praia do Guincho onde ocasionalmente refugia-se o “surfista existencial” Rafael (Pedro Sousa).
Se o realizador francês Bruno Dumont, também afeito a temáticas semelhantes, consegue escapar à armadilha da vinculação dos sofrimentos existenciais das suas personagens a um dogma específico, concedendo-lhes uma dimensão metafísica (embora sempre a rondar as fronteiras do tédio absoluto), Sapinho afunda-se na rotina conventual dos Capuchos e arrasta o espectador para uma via crúcis que beira frequentemente ao insuportável.
Mal para os jovens atores. Pedro Sousa não parece perceber muito bem o que está acontecer, dado a notória dificuldade que sente em “entrar” na personagem. A coisa corre melhor com Joana Barata, que parece promissora. Sobram algumas imagens de cartão postal e umas tantas composições de figuras “desfalecidas” sobre as pedras – tão belas quanto adequadas a este pedaço de história morta.
O Melhor: algumas belas imagens
O Pior: a terrível falta de contemporaneidade com suas intermináveis sessões de auto-flagelação
| Roni Nunes |

