Esta colagem visual e sonora que se pode chamar “pós-moderna” assenta bem na pele de um realizador de 23 anos, que chegou ao ambicionado Festival de Cannes com apenas 20! (com seu trabalho, “J’ai tué ma mère”). O filme de Xavier Dolan segue a história de Laurence Alia (Melvil Poupaud), um professor de literatura com um relacionamento cool com a sua namorada, Fred Delair (Suzanne Clément) que decide, de um momento para o outro, passar a vestir-se de mulher. Uma decisão carregada de consequências.
Em termos temáticos, este quadro colorido e irrequieto centra-se num questionamento verdadeiramente cético de alguns paradigmas da pós-modernidade, com particular incidência na questão da tolerância. Uma vez decidido a trocar de roupa, Alia torna-se um verdadeiro incómodo ambulante e chega facilmente ao limite da marginalidade social.
Em termos estéticos, Dolan não se poupa em floreios para produzir uma verdadeira “mistela” estilística, onde interliga o seu retrato de modernidade com uma procura por uma narrativa ela própria liberta das amarras de standards tradicionais. Em termos de câmaras, há movimentos, ângulos e enquadramentos para todos os gostos, tudo emoldurado com muita, muita música – clássica, eletrónica, indie, “pimba”, etc.
À medida que passa o (longo) filme vai ficando menos interessante, perdendo um bocado o foco ao centrar-se em demasia numa relacionamento que, afinal de contas, não “ata nem desata”. Mas, no cômputo geral, Dolan exibe uma segurança enorme, produz uma obra extremamente bem filmada, com atores excelentes (além do casal protagonista, uma bela aparição da veterana Nathalie Baye) e com umas tantas grandes imagens.
O Melhor: a segurança e a convicção da realização
O Pior: a história das personagens principais nem sempre é cativante
| Roni Nunes |

