«O Cônsul de Bordéus» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)


Se os extermínios em massa dos campos de concentração nazis foram atos meramente burocráticos, destituídos de ideologia – como sugere a filósofa Hannah Arendt na sua controversa tese sobra a banalidade do mal – Aristides de Sousa Mendes tornou-se um herói ao transformar o seu carimbo de burocrata numa arma contra a indiferença. Através dele e da sua assinatura, milhares de refugiados que vinham dar ao sudoeste francês como moscas, a fugir das invasões alemãs no norte da Europa, conseguiram chegar a Portugal e escapar a um destino certamente menos venturoso. E isso a contrariar ordens expressas de ninguém menos que o próprio Salazar.

Com recursos de produção limitados, o filme tenta dar alguma envergadura a biografia do diplomata utilizando o recurso da história contada por alguém que testemunhou quando garoto os factos ocorridos – no caso o maestro Francisco de Almeida numa bela interpretação do ator espanhol Manuel de Blas. Assim, através de flashbacks e reviravoltas paralelas, João Correa e Francisco Manso conseguem preencher o filme sem centrar-se de forma desgastante no diplomata – já que se trata de um filme e não de uma aula de história.

Mas esse recurso não é suficiente. O filme ressente-se de um enquadramento mais alargado da figura de Aristides, pois toda a sua abordagem aqui resume-se aos feitos naqueles dias em que conseguiu emitir os vistos. Falta algo mais, pois terminamos o filme a ignorar praticamente tudo do biografado – exceto que teve uma epifania após três dias de meditação e resolveu atuar contra o seu próprio governo. O que, além do mais, não deixa de ser curioso, pois ele já tinha uma vasta folha de serviços prestados em diversas partes do mundo.

Outro problema que poderia ser evitado é o da inverosimilhança das línguas faladas no filme: de repente, toda a gente, até um oficial da guarda espanhola, fala português. O que não se justifica num país acostumado a legendas – e onde o recurso a elas daria maior credibilidade ao projeto como um todo.

Isso não impede o filme de ter momentos bastante bonitos e emocionais. Além de Blas, também as caraterização de Vítor Norte como o protagonista e Carlos Paulo como o rabino Kruger são excelentes – tão bem, de resto, como todo o elenco secundário. E, por fim, a tragédia pessoal do maestro nunca a chega a ser supérflua diante da história que testemunha – sendo encerrada com um belo e surpreendente final.

Se, por um lado, o filme pode ser acusado de santificar o biografado, recurso sempre duvidoso, por outro é impossível negar a grandeza dos feitos de Mendes. Se nos tempos de individualismo e indiferença generalizada em que vivemos, um funcionário público que fizesse mais do que lhe é exigido por se importar com a sorte alheia já seria um herói, que dirá um a trabalhar sob as ordens de um patrão que torturava, prendia, exilava ou executava quem lhe fizesse frente. 

O melhor: as interpretações e a escolha do tema
O pior: não conseguir um retrato mais profundo sobra o biografado
 
 
 Roni Nunes
 

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