«Argo» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Estamos no final dos anos 70 e é tempo do xá iraniano Reza Pahlevi deixar o poder depois de umas tantas décadas de ditadura. Quem o acolhe é o governo norte-americano – que é, pelo menos neste caso, um parceiro fiel: Pahlevi foi, durante todo o tempo que esteve no poder, um aliado fundamental do estado yankee e das suas companhias de petróleo no Médio Oriente. Essa informação é dada pelo filme de Ben Affleck.

E era também o momento de retribuir o “favor”, o que Jimmy Carter, um dos presidentes cuja política externa foi considerada das mais desastrosas pelos especialistas norte-americanos, fez sem temer pelas consequências. O problema é que esse amigo iraniano não serviu apenas de marionete dos Estados Unidos, como torturou e assassinou milhares de opositores dentro do seu país.

Esta foi outra observação feita pelo filme, que de resto é taxativo ao afirmar que os iranianos sob o comando do recém-empossado ayatollah Khomeini tinham toda a razão em estar furiosos com os norte-americanos. Esta fúria invade as ruas de Teerão e culmina com a invasão da embaixada dos Estados Unidos, o sequestro e a ameaça de morte a 60 reféns. Ocorre que seis diplomatas escapam pelas portas traseiras durante a revolução iraniana e ficam escondidos na casa do embaixador canadiano. 

Com esta abertura política “a matar”, onde se reconhece a tutela do insuspeito George Clooney na produção, era de se esperar que tivéssemos por aqui uma versão de “Syriana” inteligível para as massas. Infelizmente não é o que acontece: a linha política de “Argo” vai se tornando turva, endireitando desesperadamente até se tornar incoerente – pois acaba por justificar a ação da personagem e enaltecer a organização que desencadearam todos os problemas relatados no filme. 

É onde o filme mais perde pontos – ainda que se esteja a umas boas milhas dos maniqueísmos, estereótipos e os nacionalismos típicos de Hollywood. Aqui não há o iraniano/muçulmano mau e o político norte-americano bom, pelo menos não numa clivagem muito vincada: até boa parte do filme, o argumento baralha bem as contas e mostra a política segundo o que ela realmente é: um jogo de poder, onde a vida humana interessa mesmo muito pouco. Mas o final…

Em termos propriamente cinematográficos, Affleck enche-se de uma enorme dose de ambição, decidido a homenagear os grandes thrillers políticos dos anos 70 (Lumet e Pakula à cabeça), e sai-se com um dos grandes filmes do ano made in Hollywood. Seguro, ágil e tenso, o filme é a confirmação dos bons presságios despertados por “A Cidade”, dois anos antes, que coloca Affleck realizador uns tantos furos acima do seu trabalho como ator. 

Com um argumento magistral, “Argo” baseia-se num aproveitamento dado à perfeição por Chris Terrio a um facto verídico: uma operação desencadeada pela CIA para resgatar os tais seis diplomatas foragidos – e mantida secreta até ao governo Bill Clinton. O engenho do qual se vai utilizar para levar a cabo a empreitada permite ao argumentista fazer uma verdadeira tábua rasa cómica de outro dos pilares americanos – a própria Hollywood. Nada glamourosa e mítica, esta aparece sob uma saraivada de diálogos sarcásticos e hilariantes inseridos em pleno desenrolar de um thriller político.

O filme ameaça derrapar no final não só pelos retrocessos políticos. Às tantas, dada a necessidade de se pôr o pé no acelerador na sala de montagem e tirar a câmara do tripé, sacrifica-se a verdade histórica em nome da ação – o que é aceitável até certo ponto, embora o espetador não tenha como saber quando começa uma ou termina outra. Mas o pior é o filme quase ser tomado por aquela obrigatoriedade do enaltecimento individual – bastante agravada pela opção por um final sentimental, que coloca o filme no caminho de uma trivialidade que tinha evitado bem até aqui. 

O Melhor: o argumento magistral de Chris Terrio, inteligente e preciso
O Pior: a incoerente viragem “à direita” na organização política do filme e o final sentimental
 
 
 Roni Nunes
 
 

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