O tempo que este projeto ficou em maturação (desde 1999), para além de uma cumplicidade para contar histórias que vem desde a infância, talvez estejam na origem da ambição dos argumentistas/realizadores Brian Klugman e Lee Sternthal neste “As Palavras”: alargar a clássica utilização de tramas paralelas não com duas, mas com três histórias. Diante desta opção, as hipóteses poderiam ser um projeto naufragado entre a megalomania e o desperdício ou uma grande obra inovadora e catártica.
O resultado não é nenhuma coisa nem outra. Os três tempos são devidamente explícitos e bem delineados, assim com as três histórias. O resultado é conciso e claro. Mais difícil é construir e começar pelo menos duas histórias com estrutura tradicional, com começo, meio e fim, e manter o interesse – e este desafio acaba por ser uma nova vitória do argumento de Klugman e Sternthal.
Por fim, resta saber se há conteúdo para isso tudo. O filme opta por uma forma poética e romantizada, embalado pela música de Marcelo Zarvos, para abordar questões sempre recorrentes do cinema norte-americano, a terra por excelência da competição e do estatuto por mérito: os desejos que se tornam realidade. Somados a isto, o eterno sonho romântico de viver da arte e da literatura
Um dos pontos de interesse de “As Palavras” é não utilizar o mecanismo tradicional do escritor/artista que luta por um lugar ao sol, passa por uma série de peripécias que o desencorajam, persiste ou tem um golpe de sorte, e termina o filme a receber um prémio. Aqui o escritor Rory Jansen (Bradley Cooper) recebe todos os louros no início do filme – mas, para que usufrua esse sucesso, será preciso que ele faça as contas com um passado mal resolvido. A partir daí, a reconstrução da sua história revela mais um frágil e moralmente insuspeito escritor remoído pela culpa e, em última instância, pela própria perda da sua alma, do que um frio, calculista e bem-sucedido artista.
O tom emocional alcança os melhores resultados com o “old man”, a personagem-chave da intriga vivida por um Jeremy Irons magistral. No final das contas, estes entrelaçamentos todos, vaivéns no tempo e entre os espaços ensolarados e verdejantes da Nova Iorque atual contrastando com a pálida Paris do pós-guerra, resulta numa obra poética e interessante sobre o desejo de romper com a vida medíocre e viver da arte. E sobre o preço a pagar por isso… Nada de muito novo, mas sempre válido.
O Melhor: Jeremy Irons, a abordagem poética, a música de Marcelo Zarvos
O Pior: o conflito pós-twist poderia ter sido melhor explorado
| Roni Nunes |

