«Cesare deve morire» (César deve morrer) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Num mundo em crise de ideias e na falta de referências atuais fortes e credíveis nas quais depositar entusiasmo, mais vale cultuar os velhos ícones e mitos do passado. Refiro-me à premiação desta obra dos Taviani em Berlim este ano – com um filme muito pouco preocupado com inovações, mas que na hora de reconstruir o velho e saudável espírito do neorrealismo italiano mostra-se cheio de vitalidade.

Vários dos seus princípios lá estão: uma história humanista, a preferência por grupos pobres e/ou marginalizados, a denúncia social e a utilização de atores não profissionais. O espírito de emulação chega mesmo à utilização de preto e branco. E, mais que isso tudo, a velha busca do papel social da arte, da conjunção desta com o meio.

Curiosamente, o ponto de partida deste César Deve Morrer é rigorosamente igual a do filme que venceu a competição portuguesa do Indie Lisboa este ano, Jesus Por Um Dia – sem que isso queira dizer ter havido cópia, seja de quem for. Por uma simples razão: não é difícil de supor o fascínio que esta conjunção de arte com marginalidade tenha sobre os realizadores preocupados com o cunho social das suas obras.

Na obra lusa, penitenciários de Bragança emprestavam seu “talento” para a encenação da Via Sacra, colmatando a falta de pessoal numa região cada vez mais desertificada. No filme dos Taviani, a coisa vai muito além, até porque os presos encenam algo muito mais complexo e grandioso: a obra de Shakespeare Júlio César.

Nesta domina o debate da luta contra a tirania, simbolizado no assassinato de César, cujas ambições se tornavam cada vez mais “imperiais”, por Brutus, o seu mais fiel partidário – que culmina na famosa frase “Até tu, Brutus”.
 
O Melhor: a conexão entre arte e marginalidade com a interpretação dos “atores”
O Pior: ao estar restrita a um único cenário, não consegue evitar alguns momentos de tédio 
 
 
 Roni Nunes
 

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