Em primeiro lugar, trata-se de um título enganador: “A Moral Conjugal” não é uma comédia de costumes sobre casais com piadas fáceis. Antes, está mais para um inventário cínico da amoralidade dos relacionamentos, onde o humor, quando aparece, é mais como um apontamento subtil.
A sua estrutura narrativa é bastante curiosa – construindo uma trama que ao longo do trajeto vai abandonando personagens e substituindo protagonistas. Num primeiro momento o registo é marcado pela construção de um perfil low profile de um médico hipocondríaco (Dinarte Branco), neurasténico e vítima de uma rejeição recente e humilhante; os planos fechados vão sufocando a personagem, que por outro lado experimenta alguma liberdade (e as concede às lagostas!) quando passa a ser assediado por uma vendedora de produtos médicos (São José Correia).
É quando essa passa a primeiro plano que o filme entra no seu melhor momento, com a história a ganhar um dinamismo e uma engenhosidade que lembra que até lembra aqueles argumentos de David Mamet dos anos 90, com cadáveres, adultérios e “terroristas”.
Tudo sem perder uma seriedade que é ao mesmo tempo farsesca… Explorando temas como a dependência emocional, a sensualidade e a amoralidade, Serra consegue ter o controlo do filme do início ao fim com seus planos fixos e fechados, que estruturam a obra de forma regular e coesa.
O problema é mesmo quando chega a fase da resolução da história. As ideias começam a escassear, o engenho anterior desaparece e o realizador/argumentista parece perguntar-se o que fazer a partir daí. Neste momento a lentidão parece não justificar mais nada a não ser a falta de rumo – e então a sensação de tédio é inevitável.
O Melhor: a “segunda” parte, com um cadáver no porta-bagagens
O Pior: o final, com uma resolução demasiado hesitante
| Roni Nunes |

