«La Folie Almayer» (A Loucura de Almayer) por Roni Nunes

Adaptação não linear do primeiro romance de Joseph Conrad, um dos grandes autores britânicos do final do século XIX, que gostava de produzir personagens em estados espirituais febris, próximos à loucura ou já dentro dela, misturados com a temática do colonialismo. Talvez por isso tenha cativado por tantas vezes a imaginação dos cineastas – já que esta é a 18ª inspirada em Conrad. 

A mais famosa é a de “Apocalipse Now” (a partir da obra «O Coração das Trevas»), com a qual esta adaptação de Chantal Akerman tem, pelo menos, uma semelhança: um visual exuberante e a utilização da selva e dos elementos da natureza como metáforas para os mais diversos e atormentados estados de espírito das personagens. Mas a semelhança fica por aqui: a abordagem de Akerman é radicalmente voltada para o interior das personagens, criando um daqueles filmes onde acontecem mais coisas fora do ecrã do que dentro dele.

“Teoricamente” conta a história de um mercador francês que se instala na Malásia com o sonho da fortuna e vê a filha mestiça ser levada da sua casa no meio da selva, contra a sua vontade, para ser educada num convento na cidade – para “aprender a ser como os brancos”. A preocupação com a evolução da história não é o foco central, mas sim o que se passa no mundo interior das personagens: a filha saída emocionalmente “anestesiada” do confinamento forçado, o guerrilheiro que se apaixona por ela em plena selva, o processo de enlouquecimento progressivo de Almayer.

Contrariamente ao que se passa em muitos filmes, em “La Folie Almayer” o ritmo diminui com o desenrolar da história e as conclusões terão de ser tiradas de planos cada vez mais longos, culminando com um enquadramento final que deve durar cinco minutos. No todo, este exemplar de cinema contemplativo é uma abordagem bela e singular da história de Conrad, emanando ecos de “India Song”, de Marguerite Duras mas, ao contrário daquela, nunca enveredando por um hermetismo visualmente descuidado ou pela total paralisia emocional.

O Melhor: a belíssima história visual e interior das personagens
O Pior: por vezes desnecessariamente lento, com planos contemplativos que nem sempre se justificam
 
 
 Roni Nunes
 

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