Os tempos presentes nem sempre têm razão e a modernidade é um índice bastante duvidoso para se enquadrar uma obra. Porque as transições temporais frequentemente mudam os conceitos e as percepções do que é “bom” ou “mau” – além de que, a nível das ideias e dos sentimentos e a despeito das molduras tecnológicas sempre mais brilhantes, há sempre avanços e retrocessos.
Isto para justificar que ainda se pode extrair prazer de um velho estilo o qual ninguém cultuou melhor e por mais tempo do que o duo James Ivory (realizador) e Ismail Merchant (produtor) – frequentemente em parceria com a escritora Ruth Prawer Jhabvala: o das requintadas adaptações literárias que utilizam-se da sutileza narrativa, da força dos diálogos e do jogo cénico para produzir, no melhor dos casos, delicadas tapeçarias emocionais.
Primeiro filme de Ivory depois da morte do seu parceiro de longa data, “A Cidade do Teu Destino Final” mantém-se fiel ao estilo que o consagrou. Desta vez a obra que originou o filme é de 2002 – do escritor inglês Peter Cameron.
Novamente retratando a vida de ricos ingleses desenraizados, narra a história de um inseguro aspirante a professor de literatura, Omar (Omar Metwally), que pretende escrever uma biografia sobre o escritor alemão exilado no Uruguai, Jules Gund, recentemente falecido. Para obter a autorização dos reticentes herdeiros, vai até estância onde vivia na América do Sul, onde acaba por ser o elemento desestabilizador de uma plácida mas fossilizada harmonia. Essa é composta pelo irmão homossexual de Gund (Anthony Hopkins), seu amante Pete (Hiroyuki Sanada), a ex-mulher do escritor (Laura Linney) e sua ex-amante (Charlotte Gainsbourg), que também vive na propriedade.
“A Cidade do Teu Destino Final” vai tecendo um quadro sobre a relação movimento/imobilismo. O ponto de partida é o desejo de Omar mudar, expresso no início do filme, e essa tentativa de movimento interior vai chocar de frente com a parede de imobilismo e desespero surdo que se esconde sobre a verdejante paisagem dos pampas uruguaios.
Não deixa de ser curioso que um dos pontos de viragem deste académico frágil e dominado pela namorada (Alexandra Maria Lara) é precisamente a sua negação da literatura, que tanto guiou o cinema de Ivory ao longo das décadas. Conforme explica num diálogo, a “literatura não concede a vida, mas tira-a”.
Embora longe de ter o vigor de outros tempos, persiste como um bom exemplar de um cinema que se apoia na sutileza das emoções e dos processos evolutivos evanescentes para criar atmosferas interessantes e belas histórias. Um elenco de primeira linha, com destaque para Linney e Hopkins, completam o quadro. Uma obra para quem não tem necessidade de assistir filmes a 10 mil/hora – mesma velocidade com que desaparecem do espírito sem deixar vestígios…
O Melhor: o jogo de mutações sutis das personagens
O Pior: longe do vigor dos bons tempos
| Roni Nunes |

