«Elles» (Elas) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Anna (Juliette Binoche) é apresentada como uma mulher de gostos refinados instalada nos espaços organizados do seu apartamento sobriamente decorado e adequadamente iluminado. O filme a segue na “psicopatologia da sua vida quotidiana”, a lidar com portas de frigorífico que não fecham, com cheiros estranhos nas mãos e outros percalços corriqueiros que servem, no fundo, para acentuar o seu estado de infelicidade crónica.

Este só vem à tona quando ela, jornalista, trabalha numa reportagem sobre estudantes universitárias que se prostituem. Percebe então que o mundo que pretendia retratar sob a ótica do feminismo da mulher emancipada esbarra numa realidade muito diferente: as suas entrevistadas não são as vítimas sofridas ou humilhadas que pensava encontrar, mas pessoas que de alguma forma lidam com um vigor e uma intensidade afetiva e sexual da qual ela já não possui a mais pequena chama.

Filme que na forma e no conteúdo tem parentescos diversos, desde a longínqua “belle de jour” de Buñuel até as estrepolias perversas de Michael Haneke. Muito longe de qualquer preocupação com originalidade temática, “Elas” traz os temas da frustração matrimonial burguesa, da energia emocional perdida e faz uma contraposição simples com o fulgor da vida de duas universitárias que se prostituem.

O que interessa é que Malgorzata Szumowska filma essa fantasia algo perversa e de cunho fortemente sexual – uma verdadeira rasteira num certo feminismo militante – com estilo, uma direção de arte e fotografia apuradas, muita música clássica e um conjunto de planos enquadramentos cuidadosamente elaborados para justapor a assepsia ultra clean de Anna com a sua queda progressiva num labiríntico processo de busca desesperada por alguma visceralidade. 

Também não poupa nas cenas de sexo, o que faz pensar que se Juliette Binoche não abraçasse a “causa” este “Elas” bem poderia ir parar no limbo onde figuram as obras de Catherine Breillat, por exemplo. É que as fantasias femininas no cinema extrapolam frequentemente o politicamente correto – mesmo tendo em conta as enormes mudanças na mentalidade feminina nas últimas décadas.

O Melhor: a qualidade estética do filme como um todo
O Pior: em alguns momentos algo esquemático e previsível
 
 
 Roni Nunes
 

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