Meter-se num filme de terror a propósito de uma menina de dez anos subitamente possuída por um espírito maligno, quase 40 anos depois de “O Exorcista” – com suas infinitas sequelas e imitações – não é um ato de falta de imaginação – mas sim de coragem. A façanha é do dinamarquês Ole Bornedal e do produtor Sam Raimi, e é tanto maior quando se vê que o filme raspa em todos os clichés do sub-género dos espíritos malévolos.
A boa notícia é que não sucumbe verdadeiramente a nenhum – e o realizador garante até o final, com uma direção segura, um ambiente tenso e alguns bons sustos. Obviamente algumas cenas são previsíveis – mas prova que alcançar um bom resultado a utilizar ingredientes já muito gastos é sempre uma questão de convicção.
Em termos de enredo, a fonte da desgraça é uma estranha caixa sem aberturas com inscrições misteriosas e da qual emana uma voz sussurrante. Vai parar às mãos de uma menina de dez anos, que faz precisamente aquilo que não devia: encontrar uma maneira de abrir a caixa.
Bornedal não descuida de nada e o filme segue certinho; o padrão familiar de pais recém divorciados e culpados, o padrasto intruso, a procura de explicações científicas e sobrenaturais. Sobre o assunto já se fizeram coisas recentes muito melhores, como “O Exorcismo de Emily Rose”, por exemplo, que possuía uma dimensão muito mais alargada – que envolvia aspetos científicos, jurídicos, existenciais.
Mas dentro de seu espírito de comedimento está o principal mérito do filme: se por um lado não é demasiado ambicioso, por outro não se chega a levar demasiado a sério. “A Possuída” é do estilo “assustem-se, divirtam-se e esqueçam”; é uma obra pensada para produzir sustos e que, nos melhores momentos, consegue alguns eletrizantes. Os efeitos especiais entram em todo esse contexto de contensão – alguns são excelentes, mas estão a serviço da história e nunca se tornam o seu centro.
De notar que o sempre presente “problema” dos filmes do género, pendentes entre a cientificidade e o sobrenatural, o filme lá tenta se explicar com o misticismo judaico e, com o seu aviso inicial de que se trata de uma história verídica, cai naquele tipo de fantasia anti-científica muito comum em Hollywood. No todo, é um filme que não inova mas também não escorrega. Não muda a vida de ninguém, mas também não incomoda.
O Melhor: Funciona bem dentro dos seus limites
O Pior: Deixar ver nitidamente quais são esses limites
| Roni Nunes |

