«As Linhas de Wellington» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

A viúva e colaboradora de Raul Ruiz, Valeria Sarmiento, finalizou aquilo que o prolífico realizador chileno não pôde fazer – vindo a falecer depois de ter desenvolvido o projeto. O que acaba por importar é o quanto “As Linhas de Wellington” sobrevive sem o seu cunho autoral – e o quanto se arriscou a perder-se numa homenagem sem grande utilidade para o espectador em geral. O filme acompanha as peregrinações de um grupo de refugiados de Coimbra, quando da terceira invasão francesa a Portugal. Essas caminhadas são intercaladas com aventuras diversas de outros personagens e que abordam os mais diversos aspetos da guerra.

É evidente que Sarmiento não é Ruiz, e o projeto ressente-se do dinamismo típico do realizador. Mas o maior senão é que “Wellington” não consegue fugir a um certo carácter “noveleiro” e da ideia de que ficaria melhor numa série televisiva. O que não quer dizer que seja mal: a sua versão cinematográfica, condensada em duas horas e meia, nunca chega a ser tediosa – e em nenhum momento deixa o espectador ansioso à espera do fim e há sequências de grande emoção.

Por outro lado, ficam histórias por resolver, personagens por desenvolver e, nos piores momentos, situações sem nexo – onde atores famosos fazem aparições sem sentido só para homenagear Ruiz (exemplo principal é a cena que reúne nada menos que três dos mais luminares da história do cinema francês – Catherine Deneuve, Michel Piccoli e Isabelle Huppert). Neste aspeto, a única que tinha um personagem por desenvolver era Marisa Paredes, embora o destaque seja o elenco português, todos com uma atuação bastante sólida.

Em termos de enfoque, Carlos Saboga (que também escreveu “Mistérios de Lisboa”) preferiu o social ao político – e o filme funciona de facto como um belo panorama de uma época. “As Linhas de Wellington” consegue passar também um retrato realista da guerra – que, mais do que feitos heróicos e defesa de bandeiras nacionais ou ideológicas, interliga-se a um cenário de desgraça e penúria generalizada.

Mas, padecendo dos mesmos defeitos dos trabalhos dos historiadores sociais, esta opção deixa o quadro “pendurado” no espaço – ou seja, sem uma devida vinculação aos acontecimentos políticos dos quais são inalienáveis. Perde-se, assim, a análise política de um período fundamental da história de Portugal: as invasões francesas estiveram ligadas à fuga da corte para o Brasil, com a consequente perda da colónia, e à revolução liberal de 1820 – que terá como consequência a guerra civil da década de 30.

Mas, no todo, é um projeto ambicioso – e que cumpre aquilo a que se propõe. Não devia ser mérito – devia ser corriqueiro – mas com o cinema português em estado de hipotermia não é nada mau que alguém se lembre de conceder à riquíssima história lusa alguma grandiosidade. 

O Melhor: A ambição do projeto
O Pior: Excessos de personagens e situações, algumas sem sentido
 
 
 Roni Nunes
 

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