«Dredd 3D» por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

Não há dúvidas que em certos casos, os fãs são mais importantes. ‘Dredd‘, a nova adaptação do comic book de Carlos Ezquerra (referir-se a isto como um remake seria no mínimo idiota), toma todas as decisões erradas na hora de atrair público e todas as certas para conseguir o estatuto de pré-filme de culto do universo do comics.
 
Ao contrário do espalhafatoso ‘Judge Dredd’ com Stallone, ‘Dredd’ não suaviza a realidade do seu conceito. Após um cataclismo nuclear, os EUA são um terreno radiativo. Todos os seus habitantes vivem em Mega City One, uma cidade que vai de Washington a Boston, rodeada de muros e onde as condições de vida são terríveis. Entre as ruínas, prédios gigantes foram erguidos onde vivem milhões de pessoas em cada um. A lei é mantida pelos Juízes, uma mistura de polícia e militar, que tem autoridade máxima. Quando apanham alguém a cometer um crime, podem executá-los na hora. Isto pouco adianta para evitar que esta sociedade distópica seja dominada pela droga e pela violência, onde os cadáveres são removidos das galerias comerciais por uma espécie de camiões do lixo.
 
O realizador Pete Travis e o argumentista Alex Garland (autor de ’28 Days Later’, ‘The Beach’ e ‘Sunshine’, tudo território Danny Boyle) não suavizam esta mundo, mas mostram-no como ele realmente seria. Na intriga do filme, seguimos como Dredd, um juiz incorruptível, leva uma aprendiza a uma missão aparentemente calma. Mas quando chegam para investigar três mortes num desses prédios com milhões de pessoas, são encurralados lá dentro – o edifício é propriedade de Ma Ma, uma rainha da droga que vive no seu topo. Dredd e Anderson terão de subir para apanhar Ma Ma – numa guerra violenta piso a piso.
 
 

À primeira vista ‘Dredd’ pode fazer lembrar a saga ‘Resident Evil’: afinal ambos são produções de ação europeias, carregadas de estética e “slow motion” nas sequências de ação. Mas se a primeira diferença entre os dois é o lado visceral e impiedoso deste filme de Pete Travis, a outra é a qualidade dos atores e o interesse gerado em torno do trio de personagens. Olivia Thirlby (‘Juno’) como side-kick e Lena Headey (‘Game of Thrones’, ‘Terminator: Sarah Connor Chronicles’) abordam as suas mulheres de forma completa e tridimensional. Já Karl Urban (um neozelandês que é um ícone de culto nas andanças do fantástico) dá a Dredd a abordagem Snake Pliskeen que ele merecia.
 
É nestes pontos que se realçam as escolhas pouco comerciais do filme: para além da opção por um ator de culto sem grande notoriedade do público como Urban,  Travis e Garland mantém-se fieis à banda desenhada e Dredd nunca retira a máscara ao longo do filme. No entanto, o carisma de Karl Urban não se contém por detrás da viseira. 
 
‘Dredd’ foi um caso gritante de inferno de produção. A certo ponto, o produtor/argumentista Alex Garland tinha um realizador de segunda unidade a filmar material a seu pedido contra as indicações do realizador Pete Travis, o qual foi interdito de editar e estar presente na pós-produção. Apesar dos dois tirem vindo a público desdramatizar a situação, tendo dito que haviam concordado em trabalhar de forma “pouco ortodoxa”, a realidade é que o filme foi rodado em 2010 e a sua produção durou 13 semanas oficiais mais 7 de segunda unidade, o que não é de todo usual.
 
Felizmente, e ao contrário dos muitos casos, os enormes problemas de produção não se notam na versão final de ‘Dredd’, que até é um filme particularmente consistente, coerente e uma agradável surpresa, pois é raro um filme de heróis tão visceral e agressivo.

Nota: Alex Garland pode ter começado a escrever ‘Dredd’ em 2006 quando terminava ‘Sunshine’, mas eu diria as semelhanças estruturais e factuais entre ‘Dredd‘ e o filme indonésio ‘The Raid’ são tão inegáveis que talvez haja uma ligação psíquica entre Garland e Gareth Evans.

O melhor: O ritmo e o tom impiedoso de todo o filme.
O pior: Um pouco mais de orçamento poderia ajudar o filme no seu contexto global.
 
 José Pedro Lopes

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