«Les adieux à la reine» (Adeus, minha Rainha) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

A sustentação da monarquia ao longo dos tempos esteve invariavelmente ligada à noção de fascínio. Isto é o que sente Sidonie (Léa Seydoux) por Maria Antonieta (Diane Kruger) – ela que tem a função de escolher obras literárias e depois as ler para a última rainha de França. Mas Sidonie faz parte de um mundo em ruínas: do lado de fora chegam ecos cada vez mais assustadores do começo do fim de uma era – o início de uma época onde o encanto da realeza se transformou num feitiço virado contra o feiticeiro. E à Maria Antonieta, esta prolixa figura da história da Revolução Francesa, coube sempre o número um na lista das cabeças a cortar pelos revolucionários.

Da verdadeira revolução só se ouvem boatos: o que se filma aqui é a forma lenta com que o mundo irrealista da corte vai aos poucos, de forma dura, dando-se de conta da rapidíssima mudança dos tempos. O enredo de “Adeus Minha Rainha” centra-se em apenas três dias – entre os quais o da tomada da Bastilha, ocorrida em 14 de Julho de 1789. O olhar é o da criadagem, que como de praxe, chega a realizar um verdadeiro tráfico de informações. 

“Tão jovem e tão cega”. A frase que o idoso arquivista de Versalhes, Jacob Moreau (Michel Robin), dirige à Sidonie, diz tudo: o seu mundo é Maria Antonieta. Vivia-se num tempo onde se ganhava o dia com um simples sorriso de um monarca, onde o mais pequeno gesto de aprovação garantia favores por uma temporada inteira.

Jacquot acerta no enfoque, ao decidir contar a história por um prisma que nem sempre é lembrado: a ação dos revolucionários, um grupo da elite social e intelectual que conseguiu doutrinar a massa bruta e maleável da metrópole parisiense contra o poder instituído, só foi possível porque, antes de mais nada, ruiu completamente a força do enorme peso simbólico da monarquia. Este é simbolizado pela cena em que o rei apresenta-se à Assembleia Constituinte sem chapéu – ou seja, como apenas um cidadão francês como outro qualquer.

O que não quer dizer que o filme seja sempre feliz em retratar a derrocada desse universo. Partindo de um microcosmo – o da criada que vê a revolução passar pela sua porta – nunca chega a atingir a intensidade do que todo o processo revolucionário representou para um macrocosmo; para os tempos dramáticos que retrata, acaba por ter um resultado emocional demasiado morno. 

Por outro lado, é inegavelmente temperado por algumas cenas bastante sensuais e um final certeiro – onde se percebe a fealdade e a perversidade de um mundo que tinha mesmo que ser destruído. Nem que fosse para ser substituído por outra casta dominante que, com o tempo, abarcaria os vícios de todos as elites.

O Melhor: a perspectiva escolhida por Jacquot na abordagem à Revolução Francesa
O Pior: demasiado morno em termos emocionais
 
 
 Roni Nunes
 

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