«The Devil’s Double» (A dupla pele do Diabo» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O projeto parte de uma ideia realmente promissora: o incrível relato feito pelo iraquiano Latif Yahia no livro homónimo sobre aquilo que viveu durante o regime de Saddam Hussein – mais exatamente entre os anos 1987 e 1991. Nesta altura, foi obrigado pelo filho do ditador, Uday Saddam Hussein, a transformar-se no seu duplo – útil para aparições públicas e deslocamentos perigosos. A viver forçadamente dentro do regime, testemunhou todo o tipo de violências perpetradas por Uday – onde violações, torturas e assassinatos eram o prato do dia. O relato de Yahia fornece uma base preciosa para fazer aquilo que outros filmes também já buscaram: captar os mecanismos de funcionamento de ditaduras através de um testemunho em primeira mão – especialmente quando traz dados dificilmente acessíveis por outros meios. 

O neo-zeolandês Lee Tamahori usa toda a sua experiência para fazer um filme ágil e eficiente – forte e violento quando necessário. Há ritmo e intensidade ao captar o ambiente totalmente delirante deste Calígula contemporâneo – e o cineasta contou com o trabalho precioso de Dominic Cooper, a viver ao mesmo tempo o histérico Uday e o sóbrio Yahia. A nível de imagens também é belíssimo, com excelentes direções de arte e fotografia. 

Mas se é feliz ao recriar de forma envolvente o cenário de loucura no qual se vivia – até lembra um Oliver Stone mais pobrezinho – por outro lado o filme quase não existe fora das atrocidades cometidas. O que, às tantas, cansa. Na metade do filme ainda estamos a assistir uma exposição dos atos do filho de Saddam sob o olhar passivo de Yahia, que não tem qualquer hipótese de mudar o curso dos acontecimentos. O que, obviamente, afeta a criação de um verdadeiro conflito que empurre o filme para a frente. Ludivine Sagnier é completamente desperdiçada com uma personagem sem profundidade, assim como o seu relacionamento com Yahia é oco. 

No mais, em termos políticos e históricos o filme não tem grande valor, com as licenças fictícias que o tornam um retrato bastante simplista dos mecanismos de poder numa sociedade complexa como a iraquiana. O atentado que Uday sofreu na vida real, e que abrange o período abarcado pelo filme, demonstra que ele tinha uma oposição suficientemente forte e com meios para o deixar incapacitado para o resto da vida. Por fim, a escolha dos discursos de George Bush para situar o espectador no tempo histórico não é das mais felizes, pois induz quem assiste a pensar que a guerra perpetrada contra o Iraque pelos Estados Unidos foi legítima. Ou, se calhar, a ideia de Tamahori era mesmo essa…

O Melhor: Dominic Cooper e o ritmo envolvente
O Pior: O alcance limitado do retrato da ditadura iraquiana
 
 
 Roni Nunes
 

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