Notícias verídicas, postadas num meio de comunicação qualquer sobre famosos, dão conta de acontecimentos absolutamente chocantes: uma atriz foi vista a sair de um restaurante, em Nova Iorque; outra foi fotografada a tomar água de coco com o namorado na praia; houve ainda um cantor que, na última sexta-feira, foi visto sair de um hotel. E, a mais espetacular, um famoso ator foi flagrado (essa é a palavra utilizada)… a tomar cerveja com a mulher!
Seria infinita uma lista destas “notícias” fundamentais para a vida de cada um e que aparecem todos os dias nos jornais e websites. Parece que poucos dos seus leitores lembram-se de fazer aquela pergunta que seria fatal para a imprensa que vive de intriguices: por que é que realmente me interessa saber que alguém esteja a beber cerveja???
Talvez nunca a irrealidade do mundo dos média (e não só da “cor-de-rosa”) terá ficado demonstrada de uma forma tão hilariante quanto através das situações surreais vividas pelo personagem de Roberto Begnini neste novo filme de Woody Allen. Um cidadão pacato, cujas opiniões em geral não interessam nem aos amigos nem à mulher, vê-se sem motivo aparente transformado numa estrela, levado por um carro de luxo até um programa de TV para responder em direto para milhares de pessoas perguntas como “O que comeu esta manhã? O pão era torrado ou normal?”.
A deliciosa ridicularização do circo mediático é ilustrativo de um filme todo ele perpassado pela relação entre as pessoas “comuns” e as celebridades com a fama – ou com a falta dela. No mais, retoma as temáticas típicas do autor, numa obra povoada por “famosos” que surgem sob uma perspetiva realista e cínica, bem diferente dos “flagras” das revistas cor-de-rosa; pelos cultos/literatos que fazem citações blasés; por um retrato do efeito das celebridades sobre o público ingénuo; pelo desespero em torno da fama.
Trata-se de uma comédia onde o realizador prova que a sua mundividência, construída ao longo de mais de 40 anos de carreira, é como plasticina: dá para esticar, dobrar, cortar, retomar a utilização e continuar a criar figuras criativas e divertidas. Ressurge aqui, por exemplo, o Woody Allen neurótico dos anos 80, que rende os momentos mais cómicos do filme; e Alec Baldwin a emular o Humphrey Bogart do fabuloso “O Grande Conquistador”, só que aqui o conselheiro “fantasma” previne o adultério, ao contrário do antecessor.
Fora do quadro principal, outros temas recorrentes: a descrença na monogamia, o medo da morte, a psicanálise. Enfim, nada disso é novo e tudo isso é novíssimo: as questões podem ser velhas (embora tremendamente pertinentes), mas a paixão do olhar é completamente refrescante.
E, já que estamos em Itália, ainda sobra tempo para uma homenagem a comédia italiana clássica – com os hilariantes desencontros do casal em lua-de-mel Antonio (Alessandro Tibieri) e Milly (Alessandra Mastonardi) – contando ainda com uma aparição de um dos seus ícones, Ornela Muti. Para finalizar, Allen dá uma piscadela de olho ao novíssimo cinema de autor do país: na saída de um cinema, vê-se que Begnini e a esposa tinham ido assistir “A Solidão dos Números Primos”.
“To Rome With Love” funciona com um bom antídoto para esses tempos de indigência mental e cinismo generalizado que retrata: é inteligente, perspicaz e pertinente, ou seja, absolutamente essencial.
O Melhor: Tudo. Inteligente, cómico, pertinente.
O Pior: niente.
| Roni Nunes |

