«Brighton Rock» (Crime e Pecado) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Em “Crime e Pecado” (Brighton Rock), a sua primeira longa-metragem como realizador, Rowan Joffé foi buscar na prolífica obra de Graham Greene a matéria-prima para um sombrio retrato da cidade do sul da Inglaterra nos anos 60. Aqui não há paz e amor (e muito menos flores no cabelo) – e os jovens são os raivosos mods, que vez por outra “divertem-se” em batalhas campais contra os rockers. Não menos relevante, há um submundo bastante ativo, com uma máfia idem. Para piorar, a vida da classe trabalhadora não é das mais gratificantes, simbolizada na existência miserável da ingénua Rose (Andrea Riseborough)  – que apaixona-se por um assassino (Sam Riley) e casa-se com ele para “ganhar uma vida”. 

Joffé retira a ação do livro que o inspirou, já adaptado para o cinema em 1947, dos anos 30 e resolve situá-la nos anos 60. Aparentemente, a ideia é desenvencilhar-se do típico filme de gangsters e modernizá-lo, acrescentando-lhe um outro pano de fundo social e político. O problema é que, paralelamente, utiliza diversas formas de expressão visual do cinema noir, operando um estranho, ainda que original, casamento de uma mitologia com outro contexto – o dos anos 60 na Inglaterra.

A mudança também lhe deu liberdade para transformar a personagem de Mirren numa espécie de ícone do feminismo nascente, bem como da laicização da sociedade. Ao mesmo tempo, deixa à pobre Rose as suas crenças – que repudia a salvação cristã apenas para substituir pelas suas próprias ilusões – conforme testemunhado pela irónica cena final.

O realizador não facilita nada a vida ao espetador ao centrar a ação em torno de um protagonista extremamente desagradável – e que não é responsável por um único ato positivo durante todo o filme. Empatia que, de resto, quase não se estende a ninguém: a ingénua e delicada Rose tampouco o é totalmente – pois enquanto luta para fugir a um destino familiar pouco promissor, adquire uma moral extremamente dúbia, cuja cegueira atávica a torna uma cúmplice ativa dos atos do marido.

Apesar disto, “Crime e Pecado” sobrevive como um filme policial interessante, com personagens com dilemas nada desprezíveis e com um pano de fundo social relevante para este tipo de histórias.

O Melhor: atribuir um pano de fundo social relevante a uma história de gangsters
O Pior: a falta de empatia das personagens principais
 
 
 Roni Nunes
 

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