Em inglês existe uma expressão para a revolução social, aquela originada nas camadas “inferiores”, que diz “there’s a shit storm a’coming”. Embora aplicada em outro contexto, o aforismo serve como uma luva aos desígnios paternais deste aviso de Stone aos seus conterrâneos: há uma tempestade de m* a chegar – e vem do Sul, do México, onde vivem os “selvagens”.
A “simpática e bonita” juventude yankee aparece representada em dois Cheech & Chong saídos de uma “dura” vida na praia para montar um inocente – descontado o facto de ser ilícito – negócio de venda de cannabis. Mas os selvagens vão estragar-lhes o idílio, uma casa na praia onde partilham tacitamente um belo adorno (e pouco mais além disso) – a narradora da história “O” (Lively). Acaba o surf e começa o inferno.
Independente daquilo que defende, falta um pouco da força das personagens, das caraterizações (exceção de Del Toro) e, principalmente da história, como se costuma encontrar nos grandes trabalhos do realizador. Não é que seja um filme mau: depois de umas tantas décadas de cinema, o cineasta não poupa no uso de recursos linguísticos variados que, se por vezes beiram o espalhafato, na maior parte do tempo criam um filme tenso, inquieto e com alguns achados – como os insights em preto-e-branco da bela “O” ao som de acordes havaianos.
Mas todo esse dinamismo não consegue escapar daquele que é o maior problema do filme – a falta de verossimilhança da história. Não adianta dar a Chong (na verdade “Chon”, vivido por Taylor Kitsch) um background de veterano de guerra, pois a sua amizade com o budista Nova Era Ben é tão improvável como o próprio personagem de Johnson – e isto considerando que se aceite o triângulo amoroso. A forma que utiliza para trazer a guerra para dentro das fronteiras norte-americanas – não faltam referências que relacionam o contexto ao que se passa no Iraque e ao Afeganistão – faz com que as tantas se vejam ex-SEALs absurdamente munidos de armas militares a lançar rockets em pleno deserto californiano.
Se em termos de argumento a coisa é difícil de engolir, o recado percebe-se bem: a guerra dos bárbaros passará as fronteiras do Império Romano do Ocidente e vai ameaçar o american way of life. A originalidade é que ele agora não é representado pela velha casinha branca com cerca e um jardim cultivado por cidadãos honestos que temem a Deus e aos comunistas – mas sim por neo hippies que fumam charros, fazem sexo livre e afagam a cabeça das crianças indonésias.
É um filme mais violento do que político – embora cumpra o protocolo stoneano de perturbar os conservadores empedernidos, com um final perfeitamente amoral. Por outro lado, quando se trata de olhar para o outro, para os que vivem do lado de fora do muro da pax americana (ela própria em crise, como o filme demonstra), o olhar de “Selvagens” – o nome diz tudo – é pouco menos bruto do que de um Stallone. É preciso não esquecer: Olivier Stone, em definitivo, não é nenhum Chomsky.
O Melhor: Benicio del Toro e a banda sonora de Adam Peters
O Pior: por vezes perde-se no propósito e parece um vulgar filme de ação
| Roni Nunes |

