«My Little Princess» (Eu Não Sou a Tua Princesa) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)
A pré-adolescência, por si só um período difícil, torna-se para um pesadelo para a menina Violetta Gheorgiu, de uma família romena que vive em Paris, quando a sua ausente mãe de repente aparece para, através da sua confiança infantil, usá-la como modelo da sua arte nada convencional. Como de fato aconteceu nos anos 70, Irina Ionesco, ela própria uma pessoa profundamente instável, ficaria célebre em França por estas fotografias, que mostrava a menina nua e em poses sensuais – mas ligadas a elaboração artística. Caberá a filha lidar com a sua herança – o desprezo na escola e a ameaça judicial de ser retirada da mãe.

Das brincadeiras com bonecas da primeira cena ao crescimento vertiginoso a que é forçada pelas circunstâncias impostas pela mãe, “Eu Não Sou a Tua Princesa” acompanha o desenrolar de um processo de amadurecimento doloroso, onde além das dificuldades inerentes à chegada da adolescência, ela tem que lidar com a perda gradual daquele que deveria ser o seu principal apoio – e onde a avó, também ela fragilizada pela própria idade, é o único vínculo de estabilidade familiar.

As fronteiras entre arte, pornografia e abuso infantil estão difusas nesta história de degradação familiar e psicológica. O maior impacte do filme está fora dele – fica-se a imaginar a vida da atriz francesa Eva Ionesco a sobreviver emocionalmente à sua infância, tornar-se cineasta e promover essa espécie de “vingança qualificada” contra a figura materna. Essa história, aliás, inspirou outra grande polémica, o filme “Pretty Baby”, de Louis Malle, que causou grande controvérsia em 1978 ao exibir cenas de nudez da pré-adolescente Brooke Shields.

Bem construído, com bom andamento dramático e com excelentes atuações – de Hupert e da novata Anamaria Volontei. Destaque também para a cena com o excêntrico milionário vivido por Jethro Cave, na vida real filho de Nick Cave.

Roni Nunes

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