“É na Terra não É na Lua” por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Inspirado por realizadores e documentaristas largamente centrados no cinema enquanto “experiência-limite” (ver artigo com o realizador) e ao mesmo tempo fascinado com aquela misteriosa, distante e minúscula ilha perdida no Atlântico, Gonçalo Tocha decidiu munir-se de uma câmara, partir para a Ilha do Corvo e registar “tudo” o que encontrasse por lá – contando apenas com um amigo como assistente e uma grande dose de paixão.

Com quatro viagens à ilha num período de quatro anos, Tocha filmou os mais diversos aspetos do Corvo – a geografia, a fauna, a flora, a vila, a arquitetura; registou a sua paisagem social com as suas diversas atividades e figuras; lançou luzes sobre a história perdida e remota desta ilha onde os registos escritos preservados são raros. 

´É na Terra não É na Lua” tem similaridades com o chamado “cinema direto”, corrente do cinema documental que tem como princípio a ideia de mostrar a realidade “tal como ela é”. Assim, sem um plano muito definido e com tudo o que pudesse acontecer deixado ao sabor da descoberta, Gonçalo Tocha entrevistou pessoas, ouviu histórias, mostrou muitas atividades artesanais que ainda sobrevivem – registou a “vida noturna”, o processo eleitoral, o batizado, a matança do porco. 

Ao concentrar todas as suas forças num cenário limitado, o realizador teve de fato a oportunidade de deixar a câmara mover-se à vontade nesta busca pelo total. O resultado é um belo e totalizante panorama de um microcosmo dissecado em seus mais diversos aspetos – dando voz a uma comunidade pouco conhecida e encurtando as distâncias entre o Portugal continental e uma de suas ilhas mais distantes. 

Entre as memórias do tempo da caça às baleias e de uma época não muito distante em que o simples aparecimento de um barco na ilha era motivo de feriado, encontram-se histórias peculiares, como a do professor de música alemão que, após viver em África, não suportou retornar à vida típica do seu país natal – mudando-se para o Corvo à procura da “Europa mais distante possível”.

Alguma fragilidade que se possa apontar em relação ao resultado final está ligada à sua premissa básica. Embora essencial para o projeto, a ideia de abrir mão de qualquer plano, de evitar conhecer o seu objeto de interesse por antecedência, fez com que o realizador terminasse por reunir um material imenso – ficando nítidas as dificuldades na hora de editar as mais de 180 horas de filmagens. Em alguns momentos encontram-se, de fato, situações ou diálogos um pouco sem finalidade, cuja necessidade de estar no filme não é clara – para além das três horas de duração dificultar a apreciação do filme. Esse pormenor vai ficar mais claro agora que “É na Terra não É na Lua” sai do seu âmbito original, o circuito dos festivais de cinema documental, para receber uma distribuição comercial.

Mas, no total, pode-se dizer que a aventura de Gonçalo traduz-se numa obra de grandiosidade e beleza – onde calmamente se dá a conhecer a pequena Ilha do Corvo, em longos planos, obedecendo ao próprio ritmo da vida nesta ilha distante e, até agora, desconhecida.
O Melhor: a grandiosidade do panorama final
O Pior: a falta de uma edição mais precisa
 
Roni Nunes 

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