«Enter the Void» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Não serão muitos os realizadores capazes de testar os limites da saturação de um espectador, oferecendo ao mesmo tempo algo nunca antes visto. Gaspar Noé está definitivamente nesse grupo de cineastas “vanguardistas” em vias de extinção, numa altura em que o cinema já conta com mais de um século de história(s).

“Enter the Void” é, a par de “Irreversível”, das experiências mais indescritíveis e inesquecíveis que o espectador irá ter numa sala de cinema ao longo da sua vida. Hipérbole? Talvez não. Em qualquer dos casos, eis um cineasta que joga com os extremos, e por isso assenta perfeitamente a quaisquer discursos de amor-ódio que venha a obter. Noé volta a puxar ainda mais botões (ok, não há uma cena de violação de 10 minutos, mas em muitos sentidos, “Enter the Void” é um filme ainda menos contido e mais difícil de engolir), ao contar a história de um “junkie”, viciado em ácidos, que encontra o seu fim num bar, de nome “The Void” (Noé joga na mesma liga de Von Trier, no que toca a simbolismos óbvios), e a partir daí… bem… digamos que inicia uma “trip” final, lutando para ficar neste mundo, devido a um pacto de sangue feito com a sua irmã. 

{xtypo_quote_left}das experiências mais indescritíveis e inesquecíveis que o espectador irá ter numa sala de cinema ao longo da sua vida. {/xtypo_quote_left}Descanse o espectador, que mesmo contada a história – e basicamente é “só” isto – esta é apenas a interpretação mais superficial. À imagem de um “Árvore da Vida”, o filme deslumbra-nos em termos audiovisuais com todas as possibilidades do meio, enquanto relaciona orgasmos, morte, amor fraternal, “trips” e reencarnação. 

O filme é em si uma “trip” de ácidos audiovisual para o espectador, filmado maioritariamente (ou sempre…?) da perspetiva do seu protagonista, adicionando vistas aéreas e “voyeuristicas” que atravessam paredes, lembrando um pouco o trabalho de David Fincher em “Sala de Pânico”. Talvez seja das poucas reminiscências e pontos de  referência que se arranjam facilmente aqui, tirando a própria marca autoral – bem, isso e “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, que paira quase sempre como um espírito aqui. Do ponto de vista mais dramático, não deixa de ser curioso que, sempre que se use este dispositivo de “primeira pessoa”, o espectador tenha tendência para se identificar mais com personagens laterais que o próprio protagonista… 

“Enter the Void” nem sempre funcionará, mas mesmo nos momentos mais enfurecedores, há aqui uma ousadia e uma humanidade desconcertantes. Noé é praticamente um anti-Ron Howard, e precisamos de mais realizadores como ele, a bem da renovação da sétima arte. Obrigatório ver, a não ser que seja epilético…    


O Melhor: Assistir a algo nunca antes visto, feito por um autor incapaz de deixar a sua visão em prol do bem estar do espectador. 

O Pior: Como todas as “trips” (presumo!), vai depender do estado de espírito de cada um, no que toca a engolir tudo o que é aqui apresentado… escusado será dizer que se percebem os apupos em Cannes – este é também um filme muito fácil de se odiar. 
 
 
André Gonçalves  
 

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