«Extremely Loud and Incredibly Close» (Extremamente Alto, Incrivelmente Perto) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Ah, o velho sentimento de nos sentirmos manipulados… e até gostarmos. 
Stephen Daldry não tem sido um realizador propriamente do circuito “art house”. Todos os seus quatro filmes foram nomeados ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Realizador ou ambos. O seu primeiro filme, “Billy Elliot” por muito eficaz que fosse, já era suficientemente populista, e muito simples na sua abordagem, se olharmos bem. “As Horas” foi um salto qualitativo, e permanecerá muito provavelmente o seu melhor filme até ao dia da sua reforma. 
Mas os seus filmes posteriores sugerem fortemente uma vontade ainda maior de varrer prémios – estando tão próximos de conseguir os dois primeiros, afinal de contas, tenta-se mudar a fórmula, e aproximá-la milimetricamente dos pontos fracos dos membros das várias Academias, sobretudo a de Hollywood. Isco, trocando por miúdos. “O Leitor” tinha o Holocausto; “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto” tem o 11 de setembro. Ambos estão dotados de uma ambiguidade emocional deveras curiosa em relação aos seus protagonistas. O Holocausto está mais distante, mas praticamente todos os que estão a ler isto viveram o 11 de setembro, nem que seja pelo televisor. 

A história segue os passos de Oskar, um miúdo sobredotado, cujo pai morreu com o colapso das Twin Towers. Ao encontrar uma chave escondida no fundo de uma jarra no armário do seu pai, Oskar inicia uma busca para descobrir o que é que aquela chave abre. 

{xtypo_quote_left}Demasiado barulhento? Sim. Manipulador até dizer chega? Pode apostar. Eficaz nos seus propósitos mais básicos? Completamente.  {/xtypo_quote_left}“Demasiado perto, mas já um pouco longe” teria sido um bom título alternativo. A verdade é que o cinema já chegou ao 11 de setembro bem mais cedo, e de forma bastante melhor (“Voo 93”, de 2006, detém até à data o melhor registo sobre a temática). Mas Daldry, o produtor Scott Rudin, e restante equipa, não se importam. Sabem que botões devem mexer e que fechaduras abrir, e ao adaptarem o romance homónimo de 2005 da autoria de Jonathan Safran Foer, fazem o tipo de magia manipuladora capaz de prender a maioria da sua audiência e até arrancar umas lágrimas pelo caminho – mesmo que qualquer espectador que assista a este “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto” saiba que está de facto a ser manipulado, e bem (!). E é com base neste conhecimento, e graças à eficácia relativa da viagem, que me vejo impedido de não nutrir uma certa admiração por este filme, tal como já tinha partilhado a minha afeição com “O Leitor”. 

O espectador tem apenas que saber os respetivos factos: #1 – Este é um filme para as audiências, não para os cínicos; #2 – Thomas Horn farta-se de gritar, de tentar o recorde de dizer o maior número de palavras por minuto, e atirar objetos variados para o chão, mas são secundários como Max Von Sydow (num papel mudo) e Viola Davis que nos dão as verdadeiras lições de representação – e contenção; #3 – Independentemente de se achar oportunista uma trama destas, e de se torcer um pouco o nariz ao uso de determinados artifícios, há algo ainda genuinamente arrepiante na imagética aqui presente. Demasiado barulhento? Sim. Manipulador até dizer chega? Pode apostar. Eficaz nos seus propósitos mais básicos? Completamente. 


O Melhor: A relativa eficácia do filme.

O Pior: A manipulação à vista desarmada. 
 
 
 André Gonçalves
 

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