É difícil admitir para um fã de longa data do realizador, mas Steven Spielberg atravessa claramente o período mais crítico da sua carreira. “Cavalo de Guerra” representa o seu segundo tiro ao lado – terceiro se contarmos com o quarto capítulo de “Indiana”, já inferior aos anteriores (mas esse filme é uma obra-prima comparado ao que assistimos aqui, sinceramente…
À partida, a ideia é curiosa: narrar uma história da perspectiva de… um cavalo. Joey é o nome dado ao equídeo por Albert, um filho de um agricultor alcoólico mas genuinamente bom, “poistáclaro”, que o compra por uma pequena fortuna, e treina-o para lavrar a terra num contra-relógio. O cavalo é uma maravilha da natureza aparentemente, e virtualmente todas as personagens ao longo do filme se apaixonam por ele, fartando-se de o elogiar a cada 5 linhas de diálogo, aproximadamente. Numa sequência que se auto-impõe como épica, a vila inteira aparece para ver o cavalo lavrar, no meio da chuva. A diferença entre este momento e… a subida de Elliot e de ET ao céu é muito simples. Em “E.T.” estavamos demasiado maravilhados para formar qualquer corrente de pensamento lógico; aqui, surge logo um comentário instantâneo a partilhar: “Olha que simpática esta gente, hein? Se estivessem mesmo a torcer por esta família, punham as mãos nas enxadas e em meia hora estava o terreno lavrado” Sinal dos tempos? Parece-me mais má escrita, muito simplesmente.
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Posteriormente, o cavalo vai à (1ª) Guerra (daí o título!), e aqui temos Spielberg de volta aos territórios de um “Resgate do Soldado Ryan”, por uns momentos. Mas nem na guerra se safa este cavalinho… quando a parte mais memorável deste acto consiste num diálogo em “terra de ninguém” entre dois soldados de lados opostos, que parece saído de um “Terra de Ninguém”, com o acrescento de ter um cavalo preso no meio (e daí toca a soltar mais elogios ao cavalo, dos dois lados! Spielberg, nunca tendo sido propriamente o cineasta mais subtil da história, não se cansa de violar aqui uma das regras essenciais da sétima arte: “Mostrar, não contar.”), é sinal de alarme para a redundância de todo um filme. Mas depois vem ainda o último acto, e desta vez, torna-se mesmo difícil defender a escolha do realizador, nem mesmo invocando Ford e Capra, e tudo o que seja cinema épico-lamechas feito nos anos 40 e 50, já agora. Tudo bem que passámos um ano dado a todo o tipo de nostalgias, mas é preciso saber traçar um limite e ter cuidado onde vamos copiar… ao menos que se copie para criar algo igualmente memorável para os nossos tempos e que saiba jogar com a sua própria história de um modo perspicaz, como tivémos em “O Artista” recentemente.
A banda sonora do sempre confiável John Williams ajuda a incorporar o tom pomposo, juntamente com a fotografia saturada de Janusz Kaminski, outro “habituée” de Spielberg – mas não nos distrai o suficiente da visão maniqueísta e moralista altamente ofensiva aqui presente. No fim de fazermos contas, “Cavalo de Guerra” é na minha opinião um ponto baixo óbvio na carreira do “senhor cinema”, tendo a consistência de bosta de cavalo – ou, como os americanos dizem, “horse s***” – mas uma bosta bem perfumada e polida, atenção. Por outras palavras, é prosseguir com cuidado, e se nunca percebeu o apelo que um simples cavalo possa ter como protagonista e adormeceu a ver um “Seabiscuit/Nascido Para Ganhar”, é melhor considerar outras opções na agenda.
O Melhor: Os valores de produção envolvidos.
O Pior: O resultado final.
| André Gonçalves |

