Brandon encontra-se deitado na cama, com ar visivelmente abatido, prestes a começar um novo dia de trabalho. O que ele faz é irrelevante para nós. Levanta-se e faz correr as persianas. A luz refletida na cama do seu apartamento estéril ilumina o título do filme, mas é uma falsa luz, como iremos testemunhar logo de seguida. Ao longo do dia, irá ter vários orgasmos, sozinho e acompanhado (mas sempre sozinho, no fundo), mas nunca, em momento algum, sentimos que há ali puro prazer.
Para Brandon, o sexo deixou de ser algo agradável, para ser um fardo, uma desordem. É o que podemos chamar um “viciado em sexo”, uma condição ainda hoje parodiada, mas que foi inscrita na Associação Psiquiátrica Americana como doença mental desde 1987, para treze anos mais tarde ser retirada, e hoje em dia não sabermos muito bem onde encaixar este “distúrbio”. O que quer que seja, não é bom, como o filme bem atesta.
O mundo idílicamente hermético de Brendan rompe-se com a chegada da sua irmã Sissy (Carey Mulligan, brilhante como já nos habituou), uma rapariga feita mulher cuja dependência amorosa e fraternal serve como um claro contraste à completa neutralidade do irmão.
O realizador Steve McQueen, que já tinha dado nas vistas com “Fome”, parece estar tentado a fazer uma carreira de sensações humanas. Depois da greve de fome, vem o vício do sexo, e entre os dois filmes, dizer qual é o mais desconfortável para o espectador dependerá da experiência de cada um. “Vergonha”, apesar de conter bem mais que a dose habitual de sexo e nudez num filme, é sempre mais trágico que erótico. McQueen faz algo de maravilhoso e provocador com um material que poderia facilmente ter dado para o torto. E Michael Fassbender despe-se aqui, literalmente e figurativamente, para uma performance arrasadora capaz de pôr qualquer nomeado ao Óscar este ano a corar de vergonha.
Este não é um filme fácil de ver, ou de falar sobre ele sequer. E ainda assim, não conseguimos desviar os olhos do ecrã. Há algo hipnótico a percorrer todos estes 100 minutos, desde um grande e doloroso “close-up” do protagonista a ter um orgasmo, a pormenores mais subtis, que nos convidam a futuros visionamentos, na esperança de obter mais respostas. Ironia das ironias, ficamos de certo modo viciados nas suas imagens, por muito pouco lisonjeadoras que possam ser.
“Vergonha” é dos filmes mais desconfortáveis que o espectador vai ver este ano, mas poderá bem ser o mais inesquecível deles todos.
O Melhor: Michael Fassbender.
O Pior: Não dar qualquer resolução fácil – o que bem vistas as coisas é perturbadoramente próximo à realidade. Claro que para quem considera o cinema como escape aos problemas insolúveis do dia-a-dia…
| André Gonçalves |

