Algo deve ter sido posto nas águas de Hollywood. Ou houve uma reunião secreta de produtores. Ou simplesmente houve um sentimento geral de recordar os bons velhos tempos em 2011, não vá o mundo acabar mesmo este ano…
Nostalgia volta a ser a palavra de ordem em “A Invenção de Hugo”, o grande regresso de Martin Scorsese ao grande ecrã, dois anos após a semi-desilusão de “Shutter Island”. Já sem contar com o seu novo “ator fetiche” Leonardo DiCaprio (e ainda bem, por um lado), “Hugo” conta-nos a história de um rapaz que vive dentro das paredes de uma estação de comboios parisiense, a fazer a manutenção dos relógios, após a morte do seu pai e o abandono do seu tio. Com ele encontra-se um autómato (tempo para recordar “Metropolis”) avariado, que será a chave de uma viagem ao passado – e aqui, mais uma vez, falamos mesmo de uma viagem coletiva, tanto das personagens como do espectador enquanto espectador de cinema.
{xtypo_quote_left} “uma carta de amor às origens de uma arte, executada com o maior dos carinhos, e sim, algum “panache”” {/xtypo_quote_left}O uso eficiente da tecnologia 3D, misturado com efeitos visuais impressionantes, serve só para aumentar o nosso maravilhamento, com a simples magia da sétima arte, composta apenas por imagens em movimento. “A Invenção de Hugo” não ficará para a história como uma das maiores invenções que o cinema testemunhou, mas tal como “O Artista”, o seu mais direto rival aos Oscars, é uma carta de amor às origens de uma arte, executada com o maior dos carinhos, e sim, algum “panache”. * Uma lição de história, e acima de tudo sobre a arte de contar uma boa história, cativante e comovente. Por outras palavras, o que esperávamos de um Steven Spielberg (por sinal, um dos melhores amigos de Scorsese) no último ano e estivemos longe de obter.
*Nota: Curioso que “O Artista” e “Hugo” se complementem um ao outro, de certo modo. De um lado, temos um filme sobre o cinema mudo de Hollywood realizado por um francês (a comercialização do cinema); de outro, temos um filme sobre um dos precursores da arte – Georges Meliès – realizado por um americano. Recuso-me aqui a tomar partidos: acho sinceramente que os dois filmes fazem uma sessão dupla de domingo à tarde deliciosa.
O Melhor: A sensação rara de termos uma história bem contada e que satisfaça qualquer cinéfilo que se preze.
O Pior: Sentirmos, tal como em “O Artista”, o efeito “pós-moderno” de já estar tudo inventado, ainda assim. E já não nos desviarmos das cadeiras assustados, como a audiência que viu “Chegada de um Comboio” dos irmãos Lumière.
| André Gonçalves |

