Mavis Gary acorda, e um novo dia começa. Bastam apenas uns instantes iniciais sem diálogo (tirando entre ela e a sua cadela Dolce) para percebermos que o seu dia-a-dia é tão repetitivo e colado ao passado como a música que toca obsessivamente no carro, quando parte de viagem com o intuito de reconquistar, de um modo igualmente obsessivo, o seu ex-namorado de liceu Buddy Slade, agora casado e com um bebé acabado de nascer. Ela é uma autora, mas até a série de livros que escreve como “escritora fantasma” encontra-se à beira do fim. A sua vida estagnou, e vai sendo alimentada com uma garrafa de Diet Coke ou um gelado Ben & Jerrys, enquanto vê maus programas de tv no sofá, e vai ganhando ideias para os seus livros das suas saídas ocasionais para o mundo exterior, mas sempre em modo de isolamento.
Mavis Gary é um acidente de personagem, no melhor dos sentidos. Psicótica, mas sem nunca ser uma caricatura, e escondendo sempre mais do que realmente diz. E felizmente, encontra em Charlize Theron a atriz à altura da sua complexidade, revelando sempre camadas mais escondidas à medida que interpreta cada gesto e linha de diálogo exatamente como estaria escrito, se não estiver ainda melhor representado com a sua visão. É uma performance ousada e que vagueia ali em zonas bem negras sem qualquer rede de apoio (veja-se o grande confronto final!), e que facilmente cairia numa paródia de si mesma. Mas Charlize, já habituada a encontrar uma racionalidade nas suas personagens mais negras e caóticas, nunca falha aqui, balanceando o humor e a tragédia como poucas atrizes o conseguem fazer. Esta pode ser até a sua melhor performance até à data. Em jeito de contraponto com a insanidade da personagem principal, o igualmente brilhante Patton Oswalt assenta que nem uma luva no papel de “grilo falante” “geek”, vítima de um crime de ódio quando andava no liceu, e a química entre estes dois atores é claramente uma das grandes vitórias aqui.
Se “Juno” era um manifesto adolescente pró-vida do mais bem intencionado e “kidifofo” que há, então “Jovem Adulta” é o seu meio-irmão rebelde, ácido e incapaz de se redimir. A dupla Jason Reitman e Diablo Cody regressou quatro anos mais tarde com um objectivo claro: dar protagonismo à rainha “bitch” do baile, vinte anos após o que ela própria considera ser o seu “pico”. E não facilitar saídas, pelo caminho. Foi uma jogada bem arriscada, numa altura em que o politicamente correto ainda impera – pelo menos falando do mercado norte-americano. E os resultados estão à vista: “Jovem Adulta” lutou para encontrar uma audiência, e os seus menos de 20 milhões de dólares nas bilheteiras, e as 0 nomeações aos Oscar espelham bem a dificuldade do público em relacionar-se com uma protagonista tão fora dos cânones da simpatia. Felizmente, e números aparte, o risco compensou, e “Jovem Adulta” não só é um filme ainda mais hilariante que o seu irmão mais novo (de maneiras por vezes bem cruéis), como revela uma outra maturidade sobre a temática da imaturidade. Bravo!
[Uma breve nota só para falar da suposta falta de empatia com Mavis. Pessoalmente acho que esta personagem torna-se inesperadamente uma porta-voz genuína para toda uma geração de “encalhados” e psicótico-depressivos que vivem noutros tempos, de modo a compensar a sua realidade atual estagnada. Num ano tão dado a nostalgias, não deixa de ser curioso que a maior chapada na cara a esse respeito venha daqui… ]
O Melhor: Os actores, o argumento, a realização, tudo no sítio certo, e sem qualquer palha, compondo os 90 minutos melhor gastos numa sala em muito tempo.
O Pior: O ser tratado como um filme inferior, ou dispensável, dado o fracasso nos prémios e nas bilheteiras.
| André Gonçalves |

