A esta altura do campeonato, Roman Polanski tem carta branca para fazer o que bem entender, e ainda bem. Pegar numa adaptação de uma peça de teatro pareceria uma jogada bastante segura. Mas esta não é uma peça qualquer.
É compreensível o apreço do realizador de 78 anos pela peça “O Deus da Carnificina” de Yasmina Reza, carregada de ironia, cinismo e violência psicológica, três aspectos que estiveram sempre infiltrados na sua obra. Se há um aspecto mais diferenciador da sua restante obra, é que aqui a violência assume contornos menos fatais. Neste confronto entre dois casais que discutem a briga um dos seus filhos do casal teve com o outro, ninguém morre – nem sequer o “hamster”, presumimos… Ainda assim, há espaço para inúmeras palavras menos queridas, e… certas alterações fisiológicas.
{xtypo_quote_left}Como a peça de teatro de sucesso que lhe deu origem, O Deus da Carnificina” merecerá ultimamente os aplausos que tanto pede {/xtypo_quote_left} Polanski é de facto um realizador excepcional a atravessar quase um renascimento nesta sua fase mais tardia da carreira, e não são todos os realizadores que conseguem prender o espectador com apenas um cenário e quatro actores – aqui e ali notamos pelo menos tentativas de inserção de planos mais intrigantes. Claro que aqui, os actores não são uns quaisquer desconhecidos… Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly estão entre a nata mais ou menos recente de actores conceituados, partilhando 4 Oscars e mais 8 nomeações entre eles, e aqui fazem todos eles um trabalho minimamente exemplar. E claro que o material de origem ajuda, hilariante e conciso. E é nesse apego à origem que talvez se prenda o aspecto mais negativo do filme: o filme permanece hermético; mesmo que o espectador não faça a mínima ideia que o filme é uma adaptação de uma peça de teatro, irá certamente notar. Só faltaria mesmo o fecho da cortina, em vez de uma imagem de exterior de Nova Iorque, uma tentativa quase desesperada de arejar o espaço. Ainda assim, não era fácil fazer de qualquer outro modo o que aqui se propôs, e tal como a peça de teatro que lhe deu origem, “O Deus da Carnificina” merecerá ultimamente os aplausos que tanto pede.
O Melhor: O material de origem é de facto, magnífico. E o quarteto de actores executa bem os seus papéis.
O Pior: O apego em demasia ao material de origem.
| André Gonçalves |

