“Quero o conto de fadas”, dizia a personagem de Julia Roberts em “Pretty Woman – Um Sonho de Mulher”. Um breve olhar pela filmografia de Garry Marshall, e acreditamos – ou queremos acreditar – que o realizador está sempre cheio de boas intenções, de construir os seus contos de fadas repletos de estrelas incontáveis, que nos permitam escapar da realidade um par de horas. Só que como dizia o outro, “de boas intenções está o Inferno cheio”, e “Ano Novo, Vida Nova”, sequela sazonal de “Dia dos Namorados”, só ajudará a prolongar o Inferno destes dias para uns quantos espectadores com um pingo de cinismo e um pé na realidade, sendo talvez o alvo mais fácil de abater num ano já de si repleto de alvos fáceis. Senão vejamos: muita estrela para pouca subtileza; personagens de cartão (também com tanta personagem seria difícil não cair neste problema); situações que nos são vendidas como imprevisíveis mas que prevemos com minutos de antecedência, no mínimo; situações manipuladoras onde não falta a banda sonora sentimental a acompanhar…
E no entanto, há mais uma vez aqui uma ligeireza que encaixa de uma forma bastante perversa com a quadra em questão. Muitos de nós também mascaramos sentimentos nestas alturas; somos obrigados a fingir felicidade e a sermos lamechas. E aqui temos um mundo maniqueísta, sim, mas que espelha de certo modo essa máscara (sem nunca a deixar cair), repleto de imagens bonitas, esperanças infantis que se constróem e que mais tarde se desvanecerão um dia ou dois após o esvoaçar dos “confettis”, e um rol de actores que gostamos/adoramos na sua maioria e com que nos ligamos facilmente. O filme parece até ter consciência do seu aspecto ridículo e foleiro lá pelo meio, assim como da sua procriação… preocupante (veja-se o “gaffe” final do nascimento, que origina uma das gargalhadas sinceras aqui).
{xtypo_quote_left}Para os mais descomprometidos, “Ano Novo, Vida Nova” oferece o entretenimento ligeiro capaz de ombrear com um especial de fim de ano de uma estação de TV qualquer {/xtypo_quote_left}Para os mais descomprometidos, “Ano Novo, Vida Nova” oferece o entretenimento ligeiro capaz de ombrear com um especial de fim de ano de uma estação de TV qualquer. Não será difícil imaginar o sucesso deste filme num futuro próximo, numa dessas estações, como parte da programação especial de fim de ano. Felizmente, será um efeito de curto prazo, e brevemente teremos um outro filme substituto – um filme bem melhor com o mesmo nível de estrelato, esperamos.
Quanto a Garry Marshall, há coisas que de facto não conseguimos controlar, como os “reality shows”, e todas aquelas coisas que nos são ditas em jeito de lição de 4ª classe. E esperar que deixe de fazer estas festas “all star” mascaradas de filmes onde os convidados se divertirão mais que os espectadores “voyeuristas” que acabam por pagar isto tudo, é inútil. O homem está definitivamente no seu mundo de fantasia. E é um mundo ainda fácil de acompanhar, caso deixe o cinismo à porta, claro está.
O Melhor: O seu aspecto ligeiro e fácil de se consumir.
O Pior: A ameaça de (ainda) mais festas filmadas por Marshall e amigos. O meu palpite vai para “Thanksgiving Day” (Dia de Acção de Graças).
| André Gonçalves |

