
A saga «Twilight» é, à sua maneira, uma verdadeira caixa de surpresas. A primeira foi, claro está, como o modesto filme de Catherine Hardwicke (que mostrou que o seu demérito no sofrível «Red Riding Hood») conseguiu conquistar um lugar de topo no imaginário do público juvenil, rivalizando directamente com uma saga de produção tão aparatosa como «Harry Potter». A segunda surpresa, foi como a série não aproveita de todo o impulso que os fãs lhe deram: «Lua Nova» é mal produzido e mal dirigido pelo insosso Chris Weitz.
No entanto, a maior surpresa viria com «Eclipse». David Slade («Hard Candy» e «30 Days of Night») impõe muito mais acção e espectáculo à rotina algo telenovelesca dos dois primeiros filmes, e oferece um dos mais agradáveis entretenimentos cinematográficos do seu ano. Os outrora desorientados Robert Pattinson e Taylor Lautner até surpreendem com algumas cenas graciosas, e o tom exageradamente romantizado dá lugar a algum sentido de humor e auto-crítica e a um ritmo bem mais emocionante.
Agora chega-nos «Breaking Dawn – Part 1», aparentemente um regresso à senda telenovelesca de «New Moon», quer pela forma como parece dividir em dois filmes aquele que é o menos interessante livro da saga, quer pela forma como é promovido: um filme com um casamento e uma gravidez. A única nota de confiança vinha na escolha de realizador, Bill Condon, responsável por «Chicago», «Dreamgirls» e «Gods and Monsters». A realidade é que «Breaking Dawn» volta a surpreender: é de longe o filme mais ambicioso e original da série, e apesar das suas mudanças abruptas de tom e de ritmo, é claramente aquele que se revela um produto mais completo e capaz.
Bella (Kristen Stewart) e o vampiro Edward (Robert Pattinson) casam-se, apesar dos apelos do lobisomem Jacob Black (Taylor Lautner) contra tal.
Na sua lua-de-mel, Edward engravida a ainda humana Bella, que fica de esperanças de um híbrido humano-vampiro. Isto despoleta a fúria dos polícias sobrenaturais da região, os lobisomens, que querem destruir Bella e travar o nascimento da aberração. Jacob e Edward terão de se unir para defender Bella, a qual, progressivamente, começa a morrer devido ao feto maligno lhe estar a drenar a vida.
A primeira metade de «Breaking Dawn» continua o estilo telenovelesco dos filmes anteriores, o que se tornou um cunho da série. O casamento e a lua-de-mel são maioritariamente baseados nas personagens e nas suas relações, que irão deliciar os fãs mas irão cair como excessivos para quem não adorar as personagens de criadas por Stephenie Meyer. Em defesa de Bill Condon, «Breaking Dawn» tem a mesma virtude de «Eclipse»: estes momentos telenovelescos são lidados com mais sentido de humor e suportados por um elenco agora mais competente (do qual é sempre obrigatório elogiar Billy Burke como o pai de Bella, o ponto de charme de toda a série).
{xtypo_quote_left}«Breaking Dawn» é o mais ambicioso…e bizarro filme desta série com tendência para a patetice. {/xtypo_quote_left}A segunda metade é surpreendentemente eficaz. Bella começa a morrer devido ao feto e a sua aparência vai progressivamente se tornando mais cadavérica enquanto a sua barriga cresce de forma impossível. O filme de Condon ganha um tom de casa de horrores, com a inevitável e aguardada cena de parto a ser impressionante e dolorosa apesar de totalmente não gráfica. Condon realiza muito bem e tem um enorme sentido de estilo. O maior elogio tem de ir para Kristen Stewart. A jovem actriz (que parecia adormecida em «Eclipse») é o ponto forte deste novo filme: a sua transformação emocional e física é impressionante e de uma dimensão inesperada.
Pena é que «Breaking Dawn Part 1» venha moldado às convenções tão parvas e ridicularizadas da saga. Algumas das cenas mais emocionantes do filme vêm acompanhadas por medonhas músicas pop que as ensurdecem. Taylor Lautner mostra-nos menos vezes os músculos mas ainda há uma ou outra cena idiota feita com ele apenas para as fãs soltarem os seus gritos histéricos.
O trabalho de Condon e Stewart na segunda parte do filme eram sem dúvida merecedores de um produto menos condicionado – com um pouco mais de liberdade em termos de exposição gráfica e violência, e sem os momentos patetas que os fãs exigem. No entanto, para mim, é uma proeza como um filme da saga «Twilight» consegue se revelar assustador e tão bizarro.
O Melhor: A realização de Bill Condon e Kristen Stewart.
O Pior: Todos os condicionalismos do lado pateta da saga «Twilight».
| José Pedro Lopes |

