«In Time» (Sem Tempo) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)
Numa altura em que por cada dez filmes em cartaz, dois são remakes, três são sequelas (ou sequelas de “remakes”), e os restantes são ideias já derivadas de qualquer outro filme do passado de maior êxito, é refrescante ver uma premissa minimamente original. 
Claro que para Andrew Niccol, trazer visões originais e até premonitórias tem sido a sua imagem de marca. Em “Gattaca”, os avanços no estudo do genoma humano tinham permitido o fabrico de seres cada vez mais perfeitos, gerando novos tipos de discriminação. “The Truman Show – A Vida em Directo” espelhava o início da era dos “reality shows”, e não estará muito longe o dia em que sacrificamos um ser humano para acompanharmos a sua vida em todos os seus momentos ao longo de 30 anos, pelo andar que caminhamos. “S1mone” antecipou também o uso frequente de actores virtuais e actores “animados” (nas técnicas de “motion capture” por exemplo) nos dias de hoje, questionando-nos sobre o que é de facto ser humano. “In Time” marca então este regresso de Nicool à ficção científica após uma ausência de sete anos dos ecrãs, e o mínimo que se pode dizer é que este é um mais uma vez, um filme dos nossos tempos, usando um futuro à partida “surreal” para a partir daí lançar uma forte alegoria à nossa condição actual. Este é o filme para os 99%. Para os indignados, e também para os que já se conformaram. 
Em “In Time”, a sociedade funciona agora numa única moeda: tempo. Os seres humanos foram geneticamente alterados para parar de envelhecer aos 25 anos, mas em contrapartida, só têm mais um ano de vida no seu “relógio” implantado no pulso. Para ganharem mais anos, terão que… ganhar tempo. E aqui tempo é literalmente dinheiro. Ou vice-versa, melhor. 
Com esta premissa mais que brilhante, podiam-se fazer vários filmes. O caminho que obtemos em “In Time” não será o melhor imaginável, mas é ainda assim dos mais excitantes de se acompanhar nos tempos de hoje: um filme de acção com mensagem política embutida, que nos faz querer ver mais deste novo mundo à medida que acompanhamos esta luta pelo tempo feita muito em formato de perseguição atrás de perseguição. 
Quanto aos actores, este não é o melhor papel de Justin Timberlake (já o vimos melhor este ano…), mas consegue criar uma química adequada com Amanda Seyfried, aqui em modo Bonnie Parker futurista e com causas “Hoodianas” (tirar tempo aos ricos para dar aos pobres)
Se “In Time” não se encontra ao nível das visões distópicas de “Gattaca” e de “Truman Show” (falta-lhe talvez um “pathos” mais credível), também não mancha de todo a reputação de Niccol enquanto génio criativo, e merece de qualquer das maneiras uma recepção bem calorosa, sobretudo tendo em conta o que disse logo no início.  
O Melhor: A premissa.
O Pior: A sensação que se podia ter ido ainda mais além. 
 
 
 André Gonçalves
 

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