(crítica à versão original em 2D)
Não será um exagero considerar Spielberg um dos maiores realizadores vivos. Afinal, inventou praticamente o género “blockbuster” com “Tubarão”; ofereceu algumas das melhores memórias de infância da geração X em diante (“E.T.”, “Indiana Jones”); para depois nos mostrar retratos assustadoramente reais da segunda guerra mundial (“A Lista de Schindler”, “O Resgate do Soldado Ryan”) e já na última década, uma visão algo pessimista do futuro (“A.I.”, “Relatório Minoritário”). São mais as obras-primas no seu currículo que os falhanços, que se contarão pelos dedos de uma mão. Infelizmente “As Aventuras de Tintin – O Segredo do Licorne” está bem longe de pertencer aos seus maiores feitos. De facto, pela primeira vez na sua carreira, Spieberg oferece-nos uma aventura sem qualquer vida ou emoção embutidas, que não acrescenta absolutamente nada à já sua extensa carreira. O que é extramente desapontante, uma vez que até “Indiana Jones e a Caveira de Cristal”, mesmo com os seus problemas, raramente nos dava espaço para recuperarmos o fôlego.
Tintin terá surgido na vida de Spielberg quando em 1981 um jornalista terá comparado “Os Salteadores da Arca Perdida” às aventuras criadas por Hergé. Precisamente 30 anos mais tarde, chega-nos então esta adaptação animada, com direito a uma perninha de Peter Jackson, mudando o contexto das personagens originais para o Reino Unido, e usando as técnicas mais actuais de “motion capture”, que capturam o movimento de actores reais e o colocam nas personagens animadas. Pessoalmente, confesso que nunca fui grande fã desta técnica, e não é este filme que me convence.
Mas a animação e a mudança de contexto das personagens serão o menor dos problemas aqui. De facto, podemos dizer que as personagens se encontram bem próximas aos desenhos originais. E no computo geral, é um filme minimamente bonito de se ver, com uma animação de qualidade apoiada numa técnica topo de gama, mesmo que uma pessoa sem quaisquer dados prévios tenha muitas dificuldades em reconhecer quem empresta a cara a quem… Spielberg a certa altura ainda nos atira um ou outro plano interessante, mas parece mais interessado em auto-referenciar-se que arranjar ideias novas, que surpreendam minimamente o espectador (há até aqui uma referência nada subtil a “Tubarão” sem tubarões à vista…). O maior problema aqui encontra-se claramente na narrativa – infantilmente simples, ou simplesmente infantil, é escolher. Ainda mais desapontante depois de reparar que Edgar Wright (de “Shaun of the Dead”, “Hot Fuzz” e “Scott Pilgrim vs. the World”) é um dos três argumentistas da película, que consegue pouco mais que acrescentar uma ou outra piada certeira a uma história insonsa e aborrecida. Nota positiva no entanto para a sequência de créditos inicial, mesmo que aí também faça de imediato lembrar um outro filme superior de Spielberg (“Catch me if You Can”).
Não duvido que este filme encontre os seus fãs (muitos vindos da BD original, muitos já com vontade de amar antes de o ver, e muitos fãs “xiitas” de Spielberg). Sinceramente, e pessoalmente, após o que experienciei aqui, espero com muito mais expectativa um “Indy 5” que um “Tintin 2”. Ironia das ironias, hoje comparamos este “Tintin” à saga Indiana Jones. E a comparação só sai mal ao primeiro…
O Melhor: A animação.
O Pior: A história insonsa e aborrecida.
| André Gonçalves |

