White Guilt é um conceito que não tem correspondência em Português, apesar de sermos acusados, com os espanhóis, de termos efectuado um dos primeiros genocídios registados, no Novo Mundo. Ainda assim, o fenómeno por vezes aparece na nossa cultura, muitas vezes de outros locais, como os Estados Unidos ou a França. Abdellatif Kechiche é um tunisino que trabalha neste último país e que não é desconhecido em Portugal, com a presença nas nossas salas, em 2007, de “Le Grain et le Mulet” (O Segredo de um Cuscuz). Em “Vénus Negra”, Kechiche explora a história de Sarah Baartman, cuja figura, esqueleto, cérebro e genitais característicos de algumas mulheres da sua tribo estiveram expostos no Museu do Homem e que foram devolvidos em 2002 à África do Sul, um símbolo do tratamento racial desigual deste país. Apesar da história de Sarah estar bem documentada e de haver livros escritos sobre ela, a imagem apresentada aqui por Kechiche é uma que assenta só sobre a white guilt.
Focando-se exclusivamente nos maus tratos e abusos de Sarah, o filme acaba por se tornar ele próprio abusador, uma exploração voyeurista do tratamento e do corpo dela, tão má como as das pessoas que pretende retratar. Apesar de Sarah ser a personagem principal, é-lhe roubada qualquer humanidade e qualquer momento em que a vontade desta se pode revelar é cortado e justificado dentro do registo do abuso. Uma pesquisa rápida poderá mostrar que há incongruências e divergências dos registos da época, que parecem servir mais a mensagem que Kachiche quer passar, do que Sarah, podendo inscrever-se este filme no lado dos que se aproveitaram dela.
Se Kachiche conseguiu fazer com “O Segredo de um Cuscuz” um filme humano, apesar de se poder argumentar que também fisicamente explorador da sua personagem feminina, neste filme abandonou qualquer pretensa e limita-se a fazer um filme para alimentar a culpa histórica do colonialismo que a classe média europeia pode ter e desonesto para com as mulheres e com Sarah Baartman.
O Melhor: A recriação histórica.
O Pior: A desumanização e a exploração de uma personagem muito mais interessante do que é mostrada.
| João Miranda |
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