Os primeiros 30 anos da sua vida, Andrei Ujica viveu na Roménia, em pleno regime de Ceausescu. A marca que ficou pode ver-se nos filmes que tem realizado sobre esse país e sobre o Bloco Soviético. “Autobiografia de Nicolae Ceausescu” enquadra-se numa triologia que, juntamente com “Videograms of a Revolution” (considerado pela Cahiers do Cinéma como um dos dez filmes mais subversivos de sempre) e “Out of Present”, se focam sobre a queda do Comunismo e do Bloco Soviético.
Apesar de ser apresentado como um documentário, a intenção do realizador é, como o próprio disse à Cinespect em Outubro do ano passado, “cinemático, não didático”. E esse é o seu maior problema. Trata-se de um filme não-narrativo construído com imagens de época, onde se pode ver a evolução (quase) cronológica do ditador, desde herdeiro do ditador anterior, até passar pela Glasgnost, onde aparece pequeno e perdido, chegando finalmente às filmagens apressadas de um ainda mais apressado julgamento, depois da queda do regime; leia-se: trata-se de três horas de propaganda intersectada por home movies, sem qualquer contexto ou narração, o que o torna um filme muito pesado e potencialmente alienante para quem não conhece a época, pontuado apenas pelos comentários que vão enchendo a sala quando entra em cena alguma personagem conhecida.
{xtypo_quote_left}este é um filme que revela a ambiguidade de ser bom cinema, mas não para os seus espectadores {/xtypo_quote_left}Na realidade, este filme tem mais afinidades com a pornografia do que com o documentário: mais preocupado com a forma e com superfícies do que com os conteúdos, aproxima-se à estrutura não narrativa do género, sendo os actos sexuais substituídos por actos de estado, encenados de forma pouco natural e semelhantes entre si. Recebido pela crítica como um marco do cinema, este é um filme que revela a ambiguidade de ser bom cinema, mas não para os seus espectadores.
O Melhor: O conceito.
O Pior: A duração e alguns dos sons que foram usados para cobrir o silêncio dos arquivos.
| João Miranda |

