«One Day» (Um Dia) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)
Alguns filmes parecem destinados a serem mal-interpretados, tal como certos relacionamentos humanos. 
Realizado pela dinamarquesa Lone Scherfig (“Uma Outra Educação”, “Italiano Para Principiantes”), a partir de uma adaptação do “bestseller” mundial homónimo escrito por David Nicholls (que assina também a adaptação),  “Um Dia” cronica um mesmo dia (15 de Julho) ao longo de duas décadas e picos na vida de um par – Emma e Dexter.  São portanto duas dezenas de segmentos, duas dezenas de anos, em que acompanhamos a vida de duas personagens, pautados por canções emblemáticas desse ano (como Tracy Chapman, Primal Scream ou Tricky). Não é propriamente a premissa mais segura para um filme romântico – é pensar naquela primeira meia-hora de “When Harry Met Sally” estendida para 107 minutos, com intervalos de um ano. 
Ao trazer esta gímnica para o grande ecrã, e ao condensar quatro centenas de páginas numa centena, arriscariamos a perder consistência, complexidade e uma ligação emocional a estas pessoas. E haverá quem acuse o filme disso mesmo.  No entanto, e à imagem do que aconteceu no passado recente com filmes como “A Mulher do Viajante do Tempo” e “Nunca Me Deixes”, esta condensação funciona até de forma mais cruel do que se possa pensar à partida, tendo em conta a premissa temporal em questão, e a mensagem mais ou menos subliminar de aproveitar o tempo que temos. E a ligação emocional permanece, partindo do princípio que o espectador já enfrentou alguma situação remotamente parecida, e não tenha uma rocha no lugar do coração. 
{xtypo_quote_left} “Um Dia” destina-se a ser um daqueles filmes incompreendido por cínicos e todos os que esperavam uma típica comédia romântica, adorado pelas mulheres que já sabiam ao que iam, e secretamente adorado por um grupo de homens românticos… {/xtypo_quote_left}Já tempos antes de algum espectador ter visto cópia do filme, surgiam críticas sobre a escolha de uma norte-americana (Hathaway) para o lugar de uma suposta inglesa de gema, ao estilo “Bridget Jones”. Hathaway está bem, e o falso-sotaque britânico acaba por não distrair de todo, ao contrário do que a crítica possa dizer. Jim Sturgees está melhor que bem. Patricia Clarkson, à semelhança de Hathaway, parece presa ao mesmo tipo de papel há já algum tempo, mas é sempre um deleite assisti-la. 
Se há algo que pode perturbar mais que um sotaque é a banda sonora instrumental, que se torna ligeiramente intrusiva (no pior dos sentidos) a pontos, e sublinha o que não precisava de ser sublinhado, sobretudo em momentos finais. De resto, “Um Dia” destina-se a ser um daqueles filmes incompreendidos por cínicos e todos os que esperavam uma típica comédia romântica, adorado pelas mulheres que já sabiam ao que iam, e secretamente adorado por um grupo de homens românticos armariados que não vai admitir que lacrimejou, muito menos admitir que deseja revê-lo na próxima semana…  Missão cumprida, portanto. 
O Melhor: A ousadia da premissa de Nicholls é cumprida com rigor e sentido romântico por Scherfig, sem pontos mortos. 
O Pior: A banda sonora que insiste em puxar lágrimas que nem precisavam de ser puxadas. 
 
 
 André Gonçalves
 

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