Este Verão parece que se uniu para me tramar com sequelas de filmes que nunca vi para começar. (Pronto, já começa ele com o jornalismo “gonzo”, e as críticas dentro de críticas, ou críticas que se misturam com experiências pessoais. Está aqui está a falar do que comeu para o almoço. )
Confesso que nunca vi o original “Carros” de uma ponta a outra. Acho que é mesmo o único filme da Pixar que nunca vi. Bem, esse e “Uma Vida de Insecto”. E “Os Incríveis”. Ok, são três afinal. Enfim, adiante. Normalmente acho importante para uma análise mais completa ver o filme anterior. Mas também sou apologista que um filme deve sobreviver por si mesmo. E “Carros 2” sobrevive, com maior ou menor genica que o anterior não saberei, mas sobrevive. É desengonçado quando precisa. Tem apenas dois ou três pequenos problemas – o que no caso de uma produção da Pixar é motivo mais que suficiente para atirar com qualquer potencial arma que se tenha à mão, seja ela branca, preta, vermelha…. O primeiro é a insistência constante em fazer de “carros” pessoas, em humanizá-los, num mundo só de transportes. O segundo é um argumento muito frágil em termos de inteligência e de uso do espaço (“gadgets” que funcionam só quando são precisos, porque se um carro saltasse para a água 10 minutos antes, não tinhamos introdução….). E o terceiro é, para além de não ter tanta piada como pensa, não há aqui qualquer derrame de lágrima como nos recentes “Wall-E”, “Up” ou “Toy Story 3”. Este último até passa no “check-in”, porque obviamente nem todo o filme de animação tem agora que fazer lacrimejar o mais sério espectador.
{xtypo_quote_left} “Carros 2” sobrevive, com maior ou menor genica que o anterior não saberei, mas sobrevive. É desengonçado quando precisa. Tem apenas dois ou três pequenos problemas{/xtypo_quote_left}Se há humor aqui? Há, e do bom. Ainda é a Pixar, afinal de contas. Ainda há direito a uma piscadela mínima a adultos, se bem que de um modo sempre infantilizado (a piada do “wasabi” sendo um bom exemplo disso). Confesso no entanto que me ri mais por minuto na curta que predeceu o filme (“Toy Story Toons: Hawaiian Vacation” – já a fazer ponte para a parte 4?).
Como sequela de Verão grandiosa e ambiciosa que se preze, temos aqui uma overdose de acção. Quatro corridas, espalhadas por todo o mundo, uma trama de espionagem em tom de sátira a meter petróleo pelo meio. O “plot” em si é até deveras inteligente e sensível. E claro, a pequenada vai comer isto em colheradas bem cheias. Mas há aqui um sinal evidente de que a grande Pixar pode estar à beira de uma crise de novas ideias. E os rumores de um “Toy Story 4” não ajudam nada à festa. Esperemos, para o bem do cinema, que não passe tudo de uma fase, e que o próximo “Brave” retome o caminho de glória do melhor estúdio de animação da actualidade.
P.S. – continuo sem perceber qual é a grande diferença que o 3D faz num filme como este, tirando nos bolsos do espectador. É mais fogo de vista que outra coisa. Ou melhor, nem sequer lança faísca para dar autêntico fogo (se é para cansar os olhos, ao menos que seja por um bom motivo)…
O Melhor: Os cenários, a animação em si; não faz lacrimejar, mas também nunca se leva a sério. Ainda será das melhores diversões da temporada para levar a criançada.
O Pior: Ser um filme da Pixar, para todos os efeitos.
| André Gonçalves |

