“How meta can you get?”
R: O suficiente para até esta crítica se querer auto-referenciar. Descansem, não há aqui spoilers de maior nestas linhas.
Oh, “Gritos”. Tu foste os meus 90s. A sério. Apesar de ser demasiado novo para ver a trilogia nos cinemas, o momento em que apanhei os dois primeiros filmes em estreia na televisão (na RTP1) em Fevereiro (?) de 2000 marcou a minha adolescência. Verdadeiramente. Eram mais hilariantes que qualquer comédia que costumava ver, e tinham mais suspense que 90% dos filmes de terror pós-”Halloween”. Mas provavelmente, tomei maior consciência da minha profunda adoração por este universo iniciado por Kevin Williamsson e Wes Craven quando fui dos poucos a defender a terceira parte da trilogia, a que supostamente iria finalmente parar com as facadas.
Ingénuos? Hmm, talvez. Sejamos sinceros: os motivos para a existência de um 4º filme são os mesmos para meses depois do sucesso do 1º filme ter estreado “Gritos 2”. Nem mais, nem menos. Se é hipócrita fingir que não há motivos monetários envolvidos, será ainda mais desprezível pensar que por ser a 4ª tentativa, estamos num cenário completamente diferente. E no entanto, as coisas mudaram. Não só tecnologicamente, mas o género do terror em si afastou-se do que era há década e meia atrás. Craven e Williamsson passaram praticamente a notas de rodapé para muita da audiência: o primeiro ainda com um êxito em “Red Eye” de 2005, o segundo refugiando-se de vez na televisão após os semi-fracassos de culto pós-”Gritos” como “A Faculdade”. Eis a contradição fascinante que o próprio “Gritos 4” enfrenta. Eis o desafio que a equipa, entretanto toda reunida, como se tratasse de uma reunião de colegas de liceu (embora Williamsson tenha abandonado a produção na fase de rodagens por conflitos de horário e nada mais), enfrentava.
Nova década, novas regras, mas os mesmos truques, e melhor, o mesmo charme. “Gritos 4” pega no potencial “pescadinha de rabo na boca” dos anteriores e sobe a parada, não só acrescentando mais sangue, aumentando o seu elenco para uma nova geração que andava a aprender a contar quando o original foi lançado (o que consequentemente aumenta a contagem de mortos e o número de suspeitos. Ou será que não?), mas acima de tudo sendo mais “meta” e potencialmente auto-destrutivo que nunca. E é esse charme neste engolir-se a si mesmo até às ultimas consequências, misturado com muito engenho (Craven, aos 71 anos, continua mestre em enquadramentos e atmosfera, muito ajudado aqui pelo director de fotografia Peter Deming), com piadas 99% certeiras, e claro, muita nostalgia, que torna esta meia-sequela, meio-reboot, em algo verdadeiramente… fascinante, para não dizer… “meta-tástica”. E sinceramente, talvez o maior milagre cinematográfico no género (sobretudo tendo em conta que não esteve livre dos seus problemas de produção) desde… bem, desde que vimos Drew Barrymore a ser esventrada. Hipérbole? Talvez, também: aqueles 40 minutos de “Gritos 2” que vão desde a cena do teatro até à escapatória no carro de polícia ainda batem qualquer coisa, convém dizer! Mas pode-se dizer duas coisas seguramente: “Gritos 4” é uma obra-prima do género, uma prova A que se pode mostrar a alguém para se perceber que “original” pode ser diferente de ser “criativo”. E que é possível ter uma quarta parte que insiste em subverter expectativas a cada bobine com todo o mérito, ao mesmo tempo que nos inserem sempre na piada. Olhe-se só para a sequência de abertura, uma extensão natural das aberturas dos primeiros dois filmes, e a estabelecer o tom para os restantes 90 minutos. Revelar mais será criminoso. Dizer apenas que toda a tecnologia dos 00s é aqui praticamente usada e referida com bom efeito – uma tentativa assustadora de update face a “O que é que fazias com um telemóvel, filho”?, do original.
A história em si? Sidney (Neve Campbell, a reter mais do que nunca um “pathos” dramático arrepiante. É a nova Ripley/Laurie Strode sem dúvida. Ou… perdão, Sigourney Weaver/Jamie Lee Curtis?), a eterna rapariga final, regressa à cidade para promover o seu mais recente livro de auto-ajuda (como os tempos mudaram…), e com ela regressa também Ghostface, sob uma ou mais identidades e uma nova geração de adolescentes (e policias “goofy”) dispostos a atenderem chamadas e a serem mortos. Simples, eficaz. Ficamos sem saber o que aconteceu a Sidney nos últimos 10 anos exactamente, mas sabemos que envolverá uma arte marcial qualquer nos tempos livres. Dewey e Gale permanecem casados, o primeiro agora um trapalhão maduro, a segunda mais campy e lunática do que nunca e com a sua “bitchiness” totalmente intacta. É como encontrar velhos amigos a esta altura, de tal modo que temos apertos no coração de cada vez que estes estão sob verdadeiro perigo.
Da nova geração, um grande grito para Hayden Panettiere, da série “Heroes” e para a sua personagem Kirby, a personagem mais imediatamente querida para este espectador, e a que tem também das citações mais sumarentas de todo o elenco.
Depois da introdução, o filme segue uma espiral ascendente – ou descendente, dependendo da perspectiva – de mortes e suspeitas, deixando poucos sobreviventes para a revelação final, num clímax surpreendentemente forte e com um comentário social muito acutilante ao mesmo tempo que faz, ou desfaz, o que se fez anteriormente – talvez até o melhor da série?
“Fun fun fun”, é o melhor para se descrever isto tudo aos longo de pouco mais de 100 minutos. Ficamos a querer mais. Repetir o prato. A corrida. Se isto não é sucesso completo, não sei o que é.
Quem já quis espetar a faca (ou o garfo) em 1996, passe à frente. Snobs que não toleram sequer a ideia de uma terceira sequela existir, quanto mais que esta tenha qualquer qualidade artística, idem aspas. Para os fãs verdadeiros (onde eu orgulhosamente me incluo) é basicamente tudo o que poderíamos esperar de uma quarta parte. Portanto, sim, aquele 9 em baixo foi provavelmente o meu “geek/fã” a falar. Ainda assim, será difícil sair desiludido de um filme tão simultaneamente bem humorado e auto-flagelador como este. Basicamente, podem existir novas regras, mas voltámos a casa. E ainda bem.
O Melhor: Piadas a cada minuto, referências atrás de referências, referências dentro de referências. É praticamente impossível não soltar uma gargalhada aqui. E também não ser agradavelmente surpreendido – sobretudo por um climax algo aterrador.
O Pior: Os alérgicos a meta-narrativas saem da sala logo na abertura. A perda é deles… E claro, tem-se sempre o receio que o sucesso disto vá gerar mais filmes indesejados (pensar em “Mitos Urbanos 2” e afins)
A Base: “E é esse charme neste engolir-se a si mesmo até às ultimas consequências, misturado com muito engenho, com piadas 99% certeiras, e claro, muita nostalgia, que torna esta meia-sequela, meio-reboot, em algo verdadeiramente… fascinante, para não dizer… “meta-tástica””…9/10
André Gonçalves

