«Rubber» (Pneu) por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)
 

Robert é um pneu que ganha a vida em pleno deserto americano. Desolado e abandonado, ele começa a rolar para imensidão do Mojave deixando um rastro de destruição. Esmaga uma escaravelho, explode com um coelho… e depois lança o caos num pequena povoação. De longe, um grupo de espectadores segue com binóculos os eventos, no que também se revela uma verdadeira luta pequeno sobrevivência: eles estão abandonados e à fome no deserto, condenados a assistir a este filme.
‘Rubber’ é uma surpreendente peça de non-sense. A sua sequencia de inico tenta trazer uma explicação ao que não faz sentido. Depois de um longo plano de um carro a atropelar cadeiras numa poeirenta estrada no meio do deserto, um policia (nosso anfitrião) explica-nos que todos os filmes estão cheios de “no reason” (coisas sem motivo) e até dá exemplos. “Porque é que o ET é castanho?”, “Porque é que matam o presidente dos EUA no filme JFK?”, a resposta é, bem, “no reason”.

Por tal, a premissa do filme com o pneu assassino pode parecer um desvario de série B, mas está aqui na realidade ao serviço de uma forma artística e algo pretensiosa peça de non-sense. O francês Quentin Dupieux  (a.k.a. Mr. Oizo) é muito eficaz na hora de fotografar o filme e dar vida ao disparate que promete. ‘Rubber’ é um filme luminoso, e com grande imagens. A câmara segue de forma perspicaz o pneu na sua cruzada, e as explosões de cabeças (sim, porque o pneu tem poderes telepáticos) são brilhantes: com excelentes efeitos visuais e uma montagem inteligente.

No entanto, é algo constrangedor assistir a ‘Rubber’. A sua premissa é deliberadamente estúpida e sem sentido. Não só por o pneu ter vida, mas devido ao facto das personagens do filme serem ou actores ou espectadores, numa abordagem pouco lógica do conceito de filme dentro do filme. No final de contas, o filme de Dupieux tem muito por onde se olhar e algumas sequencias de verdadeiro humor. De destacar a morte do peru ou o ataque à empregada do hotel, pura diversão disparatada com perfeita execução artística. Mas no final, esta obra revela-se tão frívola como se fosse um mero produto “exploitation”.

José Pedro Lopes

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