Um pouco como as várias realidades do filme, as intenções e os resultados de ‘Sucker Punch-Mundo Surreal’ parecem não encaixar muito bem. Dispensá-lo como um “delírio visual” seria razoável, mas uma saída fácil considerando que o responsável pelo projecto – Zack Snyder de ‘300’ e ‘Watchmen’ – tem sido frequentemente perdoado ou crucificado como um mero realizador visual. Para seu bem e para seu mal, não penso que o seja e, acima de tudo, não me parece que aqui ele pense que é.
No filme seguimos como Babydoll é internada num manicómio pelo seu padrasto por matar a tiro a sua irmã quando, na realidade, o queria matar a ele por ser um pederasta. Mas no manicómio, ela vai ser lobotomizada em poucos dias. E aí que Babydoll cria uma realidade na sua mente: ela está presa, mas num bordel, onde irá ser desvirginada por um empresário terrível dentro de poucos dias. Nos treinos de dança do bordel, Babydoll descobre ainda outro nível de realidade: quando ouve música e dança, ela é levada para mundos impossíveis onde é uma destemida guerreira.
Snyder é um realizador brutal em termos visuais. O seu domínio em animação e em CGI permitem-no criar cenários impossíveis com criaturas enormes e movimentos de câmara que desafiam as regras da linguagem visual. Se ‘300’ era uma explosão de estética máscula e viril, ‘Sucker Punch’ é o mesmo numa vertente burlesco-bélica. As lutas de Babydoll são enormes e impecavelmente coreografadas – especialmente o segmento da Guerra Mundial. Snyder domina muito bem a acção e é, tecnicamente, exímio. Isto não é, de todo, uma surpresa. O seu ‘remake’ de ‘Dawn of the Dead’ marcou um padrão para a linguagem do terror dos anos 00, e ‘Watchmen’ é um filme exímio em momentos mais físicos.
No entanto, ao contrario de ‘Dawn’, ‘300’ ou ‘Watchmen’, ‘Sucker Punch’ não é baseado num livro consagrado ou num filme de culto. Pelo contrario, até é escrito pelo próprio Snyder. As ideias da história de Snyder, e as suas intenções, são até bastante interessantes. O seu esquema narrativo visa ser uma espécie de ‘Inception’ montado ao contrário: os níveis de “fantasia” é que influenciam a “realidade” e as suas implicações parecem invertidas.
Mas estas ideias encontram-se frequentemente dispersas e trocadas. Snyder deixa – e bem – algumas coisas por explicar mas, ao mesmo tempo, fecha de forma exagerada e algo ilógica pontas menos relevantes. Os “voice-overs” que povoam o início do filme (que é péssimo) e o final são provas da falta de capacidade de escrever um argumento que explica a história que se quer contar.
As confusões narrativas estendem-se a uma grande confusão de agenda. ‘Punch’ é frequentemente juvenil e descontraído no seu espírito de aventura e no seu imaginário de acção. Por outro lado, aborda temas como a escravatura sexual, violência contra mulheres e até o abuso de menores (este último apenas implícito). O filme tem dragões e zombies-nazis numa ponta, e prostitutas a chorarem e a serem executadas a sague frio no outro.
Zack Snyder pode ser muito preciso e claro a nível visual e na hora de coreografar o filme, mas confunde-se narrativamente. ‘Punch’ é o seu trabalho menos bem conseguido precisamente por a história estar escrita com esta falta de clareza. No entanto, há que louvar o facto de Snyder apresentar aqui um ‘blockbuster’ original e estranho, com uma agenda tão repleta que se acaba por baralhar a si próprio mas que não se fica na convencionalidade. O principal problema de ‘Sucker Punch’ é que tem uma ambição muito superior ao que na realidade é capaz. E numa Hollywood cheia de ‘remakes’ e propostas conservadoras, isto é bem capaz de ser um louvável acto de coragem.
O Melhor: Os combates passados na terceira realidade.
O Pior: Snyder não consegue trazer ordem e coerência à sua ambição de criar um filme original.
A Base: ‘Sucker Punch’ tenta ser mais do que um delírio visual, mas Snyder não é tão claro e eficaz a escrever quanto é a realizar. 7/10
José Pedro Lopes

